Colunistas

01/02/2015

A Turquia entre Oriente e Ocidente

Uma das consequências da 1ª Guerra Mundial foi a queda do Império Otomano que existiu desde 1299 até 1922, fundado por Ertughrul e seu filho Osman, em árabe Otman, donde deriva o nome Otomano.

Em seu auge, no século 17, aquele império compreendia a Anatólia, o Oriente Médio, parte do norte da África e o sudeste europeu.

Dos escombros desse império nasceu a atual Turquia, criada em 1923 por Mustafa Kemal Atatürk (1881-1938) como Estado laicista sucessor do Império Otomano. Kemal Atatürk foi o primeiro presidente da nova República Turca. Governou o país de 1923 até ao ano de sua morte em 1938. Adepto do Iluminismo, transformou a nova república turca num Estado democrático e secular, introduziu reformas políticas, econômicas, culturais e sociais nos moldes de alguns países europeus. As reformas de Kemal Atatürk costumam ser chamadas de “kemalismo” e continuam a formar a base política do atual moderno Estado turco.

Kemal Atatürk, apesar de iluminista convicto, foi um homem politicamente ambíguo. Externamente defendia a absoluta neutralidade da Turquia em relação a outros países; internamente era intolerante às críticas com respeito aos seus objetivos de transformar a nova Turquia num país laicista, secular e democrático.

Em uma sociedade islâmica, tais objetivos eram revolucionários e o iluminista Kemal Atatürk, semelhante a seus ídolos do Iluminismo francês, sem vínculo religioso, vivia em constante conflito com o clero islâmico, cuja religião detestava. Muitos dos imames e mullahs que o criticavam por sua “abertura” foram afastados e mortos.

Jacques Benoist-Méchin (1901-1983), intelectual francês, em sua obra “Mustapha Kemal – La mort d’un Empire”, editada em 1954, transcreve várias declarações de Kemal Atatürk que não deixam dúvida quanto ao seu pensamento em relação ao Islã. Reproduzimos apenas uma como exemplo: “As regras e as teorias de um velho xeque árabe (Maomé) e as abstrusas interpretações de gerações de imames indecentes e ignorantes estipularam todas as leis civis e penais na Turquia. Eles não só determinaram a forma da Constituição, mas regulamentaram também os mais simples atos e gestos do cidadão; sua alimentação, as horas de repouso e as de permanência acordada, usos e costumes e até mesmo os pensamentos mais íntimos. O Islã, esta absurda teoria divina de uma beduíno imoral, é um cadáver em putrefação que intoxica a nossa vida”.

Com tais declarações, e outras bem mais críticas, Kemal Atatürk, se vivesse hoje, seguramente não teria chances para sobreviver nem física nem politicamente.

A neutralidade da Turquia em relação a outros países defendida por Kemal Atatürk não durou muito. O nascente conflito Leste-Oeste após a 2ª Guerra Mundial e as tentativas da então União Soviética em influenciar e impor seus interesses na Turquia contribuiram para que o governo turco mudasse definitivamente sua política de neutralidade exterior.

Em 1950 a Turquia participou com um contigente militar na Guerra da Coreia e, em 1952, tornou-se membro da OTAN. A partir deste momento a Turquia viu-se integrada totalmente no sistema de defesa do Atlântico Norte, isto é, Europa, Estados Unidos, enfim, no mundo ocidental.

Durante a Guerra Fria a Turquia, em virtude de sua posição geográfica estratégica, serviu de ponte confiável entre Leste e Oeste. Istambul (a antiga Constantinopla) sempre foi vista como porta de entrada da Europa para a Ásia. A ponte sobre o Canal do Bósforo que liga a Istambul europeia com a Istambul asiática é o elo terrestre entre a Europa e a Ásia. Deste modo, Istambul é a única cidade do Planeta que se estende por dois Continentes.
A OTAN dispõe de uma base aérea, (Incirlik, a 12 km a leste de Adana, no sul da Turquia), que foi de capital importância não só em períodos de tensão entre os dois blocos, mas também em conflitos no Oriente Médio, na África e outros focos. A base é de propriedade da Força Aérea Turca, mas o maior usuário, além da OTAN, é a US Air Force (USAF).

Desde 1999 a Turquia é candidata à filiação à União Europeia, com a qual já mantém um acordo de União Tarifária desde 1966. No entanto, grande número de críticos refuta o projeto por várias razões. Muitos argumentam que 97% do território turco geograficamente não pertencem à Europa mas à Ásia Menor. Outros criticam a Turquia principalmente por seu déficit em relação aos direitos humanos e a liberdade de imprensa. O fato de a Turquia ser o primeiro país islâmico a querer participar do “clube” europeu preocupa grande número da população europeia. Além disso, a Turquia tem a não resolvida e difícil situação com os curdos e talvez seja esta, de momento, a principal causa, que faz Bruxelas relutar em aprofundar as gestões referentes a uma filiação à União Europeia.

Economicamente a Turquia ocupa lugar de destaque entre os países islâmicos em virtude de sua base industrial desenvolvida. O crescimento econômico médio de 8% dos últimos cinco anos é respeitavel; no mesmo período, as exportações triplicaram. Com uma população de 76,6 milhões de habitantes, a Turquia tem 172 universidades (uma alemã), 4 academias militares e 1 academia de polícia. Diante deste quadro, a Turquia, do ponto de vista econômico e com algumas correções em outras áreas, bem poderia preencher os requisitos para tornar-se membro da União Europeia. No entanto, as negociações não progridem e Bruxelas, de momento, demonstra pouco interesse em aprofundar o processo de filiação, uma situação que aborrece o governo turco, em especial, o seu atual presidente Tayyip Recep Erdogan.

A carreira política de Recep Tayyip Erdogan começou com tropeços. De 1994 a 1998 foi prefeito de Istambul. Data desta época um de seus depoimentos que se lhe gruda como carrapicho: “Não é possível ser laicista e crente islâmico ao mesmo tempo”. Em entrevista ao jornal turco “Milliyet” declarou ser adepto da xariá. Passou 10 meses na prisão. Fora condenado por ter citado em um discurso uma passagem de um poema religioso atribuído a Ziya Gökalp(1876-1924): “A democracia é apenas o trem no qual subimos até chegarmos ao destino. As mesquitas são nossas casernas; os minaretes, nossas baionetas; as cúpolas, nossos capacetes; os soldados, nossos crentes”.

Paralelamente o seu partido foi proibido por simpatizar com o jihad e com a xariá, tendências incompatíveis com os objetivos do fundador da república Kemal Atatürk. Erdogan simplesmente filiou-se a outro partido.

Em 1994, Recep Erdogan foi contra a adesão da Turquia à União Europeia. Seu argumento na época: “A União Europeia é uma associação de cristãos na qual os turcos não têm nada a procurar”.

De 2003 a 2014 Erdogan foi ministro-presidente, isto é, chefe do governo da Turquia. Enquanto chefe de governo, Erdogan introduziu algumas leis esdrúxulas como, por exemplo, ônibus escolares separados para meninos e meninas; a criação de zonas separadas para senhoras nas praias turcas e outras idiossincracias. Herbert de Moraes em sua coluna “Direto do Oriente Médio”, com o título “Recep Erdogan: a Turquia tem um sultão”. publicada no Jornal Opção, edição 2056 de 30 de novembro a 6 de dezembro, descreve com exemplar clareza o relacionamento discriminativo de Erdogan em relação às mulheres de seu pais.

Erdogan, que já tinha sido eleito três vezes, por razões constitucionais não pôde ser reeleito. Candidatou-se ao cargo de presidente para o qual foi eleito por voto direto e empossado em agosto de 2014. Curioso é que nesta nova função, Recep Erdogan, atua não como presidente de Estado. Ele atua como se fosse chefe de governo relegando em egundo plano o seu verdadeiro chefe de governo, o ministro-presidente Ahmed Davutoglu.

O presidente Recep Tayyip Erdogan, com suas últimas declarações, tem causado tanto estranheza, como irritação e deboche na cúpula da União Europeia e da OTAN, onde já se questiona se o presidente turco e o país que representa ainda pode ser visto como membro leal desta organização. Seus namoricos com o presidente Vladimir Putin causam arrepios em Bruxelas.

Uma afirmação de Erdogan que provocou deboche lê-se da seguinte forma: “Contatos com a América Latina e o Islã datam do século 12. No ano de 1178, 314 anos antes de Cristóvão Colombo, navegadores islâmicos já chegaram ao Continente Americano. Colombo, em seus escritos, menciona uma mesquita numa colina da costa de Cuba”.

O papa Francisco chegou à Turquia em visita oficial em 28 de novembro passado. Um dia antes de sua chegada, o presidente Erdogan pronunciou um discurso em Istambul no qual disse o seguinte: “Aqueles que vêm de fora para o mundo islâmico preferem petróleo, ouro e diamantes; eles preferem forças braçais baratas, discórdia e briga. Eles não suportam quando questionamos algo. Creiam-me, eles não gostam de nós. Eles parecem ser amigos, mas gostariam de ver-nos mortos. Eles gostariam de ver morrer as nossas crianças”. Na Europa esta declaração causou fortes discussões.

Erdogan é a figura central na política turca. Se o presidente Vladimir Putin, segundo comentários da imprensa europeia, atua como czar, que sonha em reestabelecer o Império Soviético, Erdogan se comporta como sultão que sonha em reestabelecer o Império Otomano. Pode-se concluir que Tayyip Recep Erdogan é um Kemal Atatürk às avessas: se Atatürk teve conflitos com os imames e mullahs, Erdogan está em bom caminho para ter conflitos com o mundo ocidental, o cristianismo.

O presidente Tayyip Recep Erdogan autoposicionou-se entre duas cadeiras, entre Oriente e Ocidente. Pode-se argumentar que se trata de uma questão de livre arbítrio, um direito inerente de homem de Estado. Só que, no caso de um país membro da OTAN, tal posicionamento cria uma situação de conflito. Eis aí mais um problema!

*Edgar Welzel é jornalista e cientista político residente em Stuttgart, Alemanha
Fonte: O autor, por e-mail. Artigo publicado também pelo jornal Opção, de Goiânia, edição 2064, de 25 a 31 de janeiro de 2015. 



Comentários

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