Fantástico mundo novo – Lissi Bender*

Os imigrantes de fala alemã vieram e encontraram aqui uma nova realidade, um exuberante mundo novo a ser conhecido e, claro, nomeado.  Assim, não somente os diferentes locais receberam nomes dentro das tradições que consigo trouxeram de terras germânicas, mas também cada nova descoberta precisava ser nomeada, principalmente no mundo da fauna e da flora.

Neste fantástico mundo novo foram conhecendo árvores, flores, peixes, gramíneas, insetos, alimentos, nunca antes vistos. E tudo isso precisava ser identificado. Para cada nova descoberta criaram um nome, alguns foram incorporados do português ou dele derivados, formas hibridas. Outros adaptados à alguma característica própria ou traduzidos de acordo com o que de semelhante conheciam.

Assim, no mundo da nova fauna que conheceram, por exemplo:

 O Preá passou a ser Sandhase, por viver em áreas arenosas; o Tucano recebeu o nome de Pfeffervogel (pássaro pimenta, por ser o Pfefferfresser um parente do tucano?); o João de Barro passou a ser o Dreckbauer (o que constrói com barro); a raposa, por seu cheiro forte, passou a ser Stinktier (animal que fede); a Araponga, por causa de seu canto de som metálico, passou a ser o Blechschmied (funileiro. Na minha Wilde Heimat, ele costuma oferecer seu canto, para meu encanto, durante a primavera); a formiga cortadeira, por carregar sua colheita nas costas, recebeu o nome de Schlepper (carregadeira); a Capivara, por habitar lugares de água permanente, recebeu o nome de Wasserschwein (porco da água); o Urubu, que se alimenta de carniça, recebeu o nome de Aasvogel (ave carniceira); a Saracura, por viver em áreas alagadas, foi chamada de Wasserhuhn (galinha da água); o bicho-de-pé, por habitar terrenos arenosos, passou a ser o Sandfloh (pulga da areia).

Assim também no mundo da flora conheceram inúmeras plantas, diferentes das existentes em sua antiga Heimat, e lhes conferiram novas denominações. Por exemplo:

O Aguapé, esta planta aquática pelo seu formato, foi chamada de Krotterpanz (barriga de sapo); o Ariticum, talvez por ser também alimento para macacos, recebeu o nome de Afferbeerbaum (árvore dos macacos);  o Ingazeiro, por produzir uma vagem com sementinhas recobertas por uma polpa doce, ficou conhecido como Zuckerschotenbaum (árvore da vagem de açúcar); o Umbu, de madeira macia e porosa, foi denominado de Käsbaum (árvore queijo); o Capim Cidró, por aliviar a febre, recebeu o nome de Fiebergrastee (gramínea de chá da febre); as Dálias, flores que produzem tubérculos na terra, ficaram conhecidas por Batateblumen (flores da batata); a florzinha  Onze Horas, por florescer na hora do meio dia, passou a ser denominada de Mittagsblümchen (florzinha do meio dia); Melancia d´água, muito apreciada como alimento para porcos, tornou-se conhecida por Schweinsmelone (melancia de porco). Ela teve sua utilidade ampliada, passou também a ser usada para cobertura de cuca e na confecção de Schmier); feijão vagem, por ser amarrado em estacas, passou a ser Stöckerbohnen, muitos pronunciam Steckerbohnen (feijão de varas); outro feijão vagem, de cor amarela, conhecido como ‘manteiga’, recebeu o nome de Putschbohnen/Buschbohnen; a Macela, por ser um chá colhido na semana santa, recebeu o nome de Karfreitagstee (chá de sexta-feira santa); o Capim Elefante – Elefantengras (tradução literal); uma gramínea com semente que gruda na roupa – Bettler; uma outra gramínea que se propaga rente ao chão foi chamada de Schleppgras; Quanxuma – Kaschumba; Cana de açúcar – Zuckerrohr, abóbora – Boba; entre muitas outras.

 Os imigrantes trouxeram objetos, a exemplo do Damensattel – a sela feminina para gavalgadas, introduziram alimentos, como as conservas, os defumados, as bolachinhas, a cerveja, e aqui conheceram outros tantos materiais, alimentos, doçuras. É o caso do melado – Sirup, do caramelo – Zuckerstein; da Schmier de abóbora – Bobaschmier; da cachaça de cana de açúcar – Schnaps; Currral de galinhas –Hühnerkorral; curral de porcos – Schweinskorral; gamela para lavar os pés – Fusskamell, entre outros.

Este mundo enriquecedor de linguagem, criado, incorporado à vida, é a expressão da existência dos imigrantes na nova Heimat. A continuação do uso da língua alemã por parte das gerações subsequentes, e dessa linguagem criada ou criativamente mesclada, expressa a identificação dos descendentes para com sua origem, com sua tradição familiar e para com seu lugar de viver. Mais do que isso, a língua alemã, seja na sua expressão padrão, dialetal e a linguagem aqui acrescida, faz parte do patrimônio imaterial e cultural de Santa Cruz do Sul.

 

*Lissi Bender é doutora em Ciências Sociais (Antropologia Cultural), membro da Academia de Letras de Santa Cruz do Sul. Comentarista do programa radiofônico AHAI.