O nome do jogo é superação

O anunciado era que um tetraplégico se levantaria da cadeira de rodas, caminharia 25 metros pelo gramado do Itaquerão e daria o pontapé inicial da Copa, graças a uma veste robótica desenvolvida no Brasil. Para decepção de muita gente, o que se viu na realidade foi um jovem amparado por duas pessoas tocar a bola com o pé – em uma base inclinada, para garantir que ela rolasse.

A história incrível e emocionante que era esperada em São Paulo, mas não aconteceu, acabou por se desenrolar de surpresa em Porto Alegre, na última segunda-feira, no jogo entre Alemanha e Argélia. Getúlio Felipe Fernandes da Silva, nove anos, perdeu praticamente todos os movimentos do corpo devido à paralisia cerebral que o acometeu horas depois do parto. Aos três anos, não conseguia sequer ficar de pé. Mas entrou no gramado do Beira-Rio caminhando de mãos dadas com seu ídolo, o goleiro alemão Neuer. O menino de Alvorada não chegou lá auxiliado por uma engenhoca com tecnologia de ponta, mas devido a longos anos de árduo esforço. Venceu uma Copa do Mundo particular e comoveu meio mundo.

O progresso obtido por Getúlio foi muito além do esperado, mas não é um caso único. Nas clínicas de reabilitação, os profissionais estão acostumados a testemunhar algumas recuperações impressionantes, que desafiam os prognósticos. É claro que nem todos os pacientes têm possibilidade de evoluir, mas nos casos em que há essa chance e ela é aproveitada além do que se imaginava, não se trata apenas de acaso. Especialistas afirmam que tais histórias de sucesso estão ligadas a fatores definidos, como o envolvimento da família e a motivação do paciente. A percepção do papel desempenhado por esses fatores faz com que, cada vez mais, os pacientes passem a uma atenção multidisciplinar.

– Eu diria que, de uns anos para cá, houve uma mudança importante nos conceitos de reabilitação. Antes o trabalho era focado na parte física e motora. Reabilitação era sinônimo de fisioterapia. Mas percebeu-se que sem a família, sem suporte emocional e sem o engajamento do paciente não é possível repetir êxitos como o do Getúlio, que superou as expectativas – afirma o fisiatra Michel Caron, gerente médico da Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD), entidade onde o menino de Alvorada recebe atendimento.

itamar.melo@zerohora.com.br

ITAMAR MELO

AS LIÇÕES DO PEQUENO GOLEIRO
FORÇA DE VONTADE
O menino que emocionou ao entrar em campo com a seleção alemã reúne, em sua trajetória, as condições que costumam estar associadas às recuperações mais impressionantes.
-Cada pequena conquista requer meses de sacrifício. Getúlio enfrenta desde os três anos uma rotina dura de exercícios, na AACD e em casa. Nem todo mundo tem a força de vontade dele. Alguns se conformam à cadeira de rodas. Quando ofereceram uma ao menino, ele não a aceitou. Queria caminhar.
ENVOLVIMENTO FAMILIAR
-Nos casos de recuperação mais bem-sucedidos, sempre há um grupo familiar a oferecer suporte e estímulo – e também a cobrar. Getúlio contou com os pais. Antes mesmo de terem apoio profissional, eles já criavam exercícios para forçar o filho a ficar de pé. Depois, aproveitaram a paixão do menino pelo futebol.
OBJETIVOS
-Getúlio se sacrifica para recuperar os movimentos porque tem planos. Desde pequeno, o sonho dele é jogar futebol. Ter um objetivo tão claro ajudou-o a lutar contra suas limitações físicas severas e sair vitorioso do embate. Pacientes sem uma razão definida para voltar a caminhar têm mais dificuldade de fazê-lo.
Profissionais capacitados
-Certas pessoas com deficiência não progridem porque não encontram apoio especializado. Essa foi a situação de Getúlio até os três anos, quando chegou à AACD, que oferece terapias de reabilitação a 770 pacientes, pelo SUS. Cercado de profissionais, o menino que só conseguia se arrastar agora caminha e corre.

Fonte: ZH, edição 06.07.2014

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