A reconstrução do Mercado Público de Porto Alegre

Passaram-se 365 dias desde que uma labareda surgiu na banca 46 e invadiu lojas do segundo pavimento do Mercado Público de Porto Alegre. Em 6 de julho de 2013, Cléber Ferreira da Silva, funcionário da banca 45, ajudava a montar as novas prateleiras de madeira da loja de artigos religiosos quando ouviu faxineiras gritarem “fogo, fogo”! Tratou de retirar as estantes novas, documentos, velas e imagens de santos até ser impedido de voltar por causa da fumaça. O incêndio consumiu quase metade de um andar e transformou o ponto turístico em um canteiro de obras. Desde que o local reabriu, em agosto passado, Cléber não visitou mais o segundo andar. E não entende como, mesmo com verba garantida pelo governo federal, o mercado ainda não voltou ao normal:

– Na Copa, recebemos turistas que deram de cara com uma lona preta. Se nos reerguemos sem dinheiro, por que não conseguem? É muita burocracia.

O coordenador da Memória Cultural de Porto Alegre, Luiz Antônio Custódio, tem outra avaliação:

– A obra está correndo rápido demais.

Desde dezembro passado, tapumes e uma lona preta de nove metros de altura cercam a área onde havia oito restaurantes, o Memorial do Mercado, um auditório, banheiros e salas como a da Associação do Comércio do Mercado e do projeto Monumenta. Mas o trabalho só começou em fevereiro.

Um dos motivos foi, de fato, a burocracia, como diagnosticou Cléber. Diretor do PAC Cidades Históricas, Robson Antônio de Almeida garante que o Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) liberou a quantia prevista para o restauro interno (R$ 6,5 milhões) em 25 de novembro de 2013. A prefeitura argumenta que, apesar de o contrato ter sido assinado no dia seguinte, a primeira parte da verba, de R$ 2,6 milhões, só chegou em 23 de janeiro. Onze dias depois, era concedida a ordem de início dos reparos.

Mas há outra parte da reconstrução que nem começou: a do telhado. É uma etapa que depende da interdição de pistas de três ruas no entorno para uso de guindastes. O vice-prefeito, Sebastião Melo, explica que a decisão de bloquear as vias esperava pelo fim dos jogos da Copa na Capital. A previsão é de fazer essa etapa ainda na semana que começa neste domingo. Conforme o Iphan, a verba para o telhado, de R$ 2,7 milhões, deve ser liberada ainda na primeira quinzena do mês. A previsão para que Cléber – e o restante da população – veja o Mercado totalmente pronto é janeiro de 2015. Até lá, não será possível passar pelo Centro sem sentir certa nostalgia.

leticia.costa@zerohora.com.br

LETÍCIA COSTA

SITUAÇÃO DO TRABALHO
RESTAURO
-A Arquium Construções e Restauro faz a obra no Mercado Público, onde ficavam restaurantes, salas, banheiros e elevadores. Há 16 funcionários envolvidos no trabalho desde 3 de fevereiro. Conforme o arquiteto Edegar Bittencourt da Luz, foi feita uma laje de concreto onde antes havia um forro de madeira e substituída a base do telhado por peças metálicas. No piso, será feita impermeabilização e, no corredor, ladrilhos semelhantes aos históricos estão sendo produzidos em Pelotas para substituírem os anteriores.
-Tempo da obra: oito meses
-Entrega: outubro
TELHADO
-A Metasa já está com a equipe mobilizada para começar a desmontagem da estrutura metálica do telhado atingido pelo incêndio. A empresa aguarda apenas a definição da prefeitura sobre a interdição de vias no local para levar os guindastes, que precisarão de 15 dias para desmontagem e outros 15 dias para montagem. Com o fim dos jogos da Copa na capital, essa etapa da obra deve ocorrer nesta semana.
-Tempo da obra: seis meses
-Entrega: se começar este mês, como deseja a empresa, poderá ser concluída em janeiro de 2015
UM ANO DE ESPERA
6 DE JULHO DE 2013
-Incêndio consome cerca de 10% do Mercado Público, quase metade do andar superior.
13 DE AGOSTO DE 2013
-O Mercado reabre parcialmente.
2 DE DEZEMBRO DE 2013
-A prefeitura anuncia que começará a recuperação de forro, piso, paredes e esquadrias do segundo andar. Problema no orçamento fez com que, até fevereiro, o restauro ficasse limitado à colocação de tapumes e limpeza da área afetada.
27 DE JANEIRO DE 2014
-Laudo aponta que fogo começou na banca 46, restaurante Atlântico. Em 3 de fevereiro, a Polícia Civil indicia João Moacir Gomes, dono da banca, e Lazaro Kieling, gerente, por incêndio culposo (sem intenção). O Ministério Público pediu exclusão de Gomes como autor e manteve Kieling, que teria sido o último a sair, com a fritadeira ligada.
27 DE MARÇO DE 2014
– Praça de alimentação provisória é aberta, com cinco restaurantes, uma sorveteria e uma loja de doces.
O HISTÓRICO DO PRÉDIO
-1861 – Projeto de Frederico Heydtmann tem estilo neoclássico.
-1869 – Com um andar, é inaugurado. Abre em janeiro de 1870.
-1912 – Um incêndio destrói bancas do pátio interno, de madeira.
-1915 – Inaugurado o 2º andar.
-1941 – Enchente inunda o térreo e fecha o prédio por 20 dias.
-1976 – Incêndio atinge bancas.
-1979 – É tombado pelo Patrimônio Histórico e Cultural de Porto Alegre e atingido por outro incêndio.
-1997 – Reinauguração após longo restauro, nova cobertura, duas escadas rolantes e dois elevadores.
-2013 – Superaquecimento de uma fritadeira causa quarto incêndio.

Fonte: ZH, edição 05.07.2014

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