Homens do mar – por Ivar Hartmann

Volta e meia ouvimos falar da camaradagem que une os tripulantes dos navios. Semanas ou meses distantes de casa e confinados em um ambiente pequeno, naturalmente são levados a relacionar-se bem com os que os cercam para passar as horas ociosas e para ter companhia segura nas horas de aprêmio. Bem como para ter companhia quando põem os pés em terra. Maior ainda é este tipo de relação quando os marinheiros estão embarcados em navios de guerra, aprestando-se para eventuais combates. Mesmo que nunca ocorram, quem sabe o que esperar no futuro? Às vezes testemunhamos estas demonstrações de amizades desinteressadas que se criam na Marinha e se perpetuam na vida civil de cada um, mostrando o quanto pode o engenho humano para mostrar companheirismo nas horas boas e solidariedade nas horas más. Neste nosso país de feras soltas, caçando os que trabalham, em busca do patrimônio deles e sem preocupar-se em ferir ou matar, é bom ver que há sim, gente que pensa no próximo sem qualquer interesse pessoal.

Conheci há pouco um eletricista, técnico em segurança, destes que instalam os sistemas de alarme residencial. Passado uns dias ele retornou para concluir o serviço e tinha mudado o visual. Demorei em entender que rapara a cabeça. Como isso, muitas vezes, é efeito de tratamentos, e para não ser direto, perguntei-lhe: “Resolveu mudar o visual?” “Não – respondeu-me – foi à forma que achei para demonstrar meu apoio a um amigo. Vou lhe contar. Há muitos anos eu entrei para a Marinha de Guerra em Florianópolis. Nossa turma, de cento e tantos marinheiros, passados mais de vinte anos, continua amiga e em contato, mesmo depois de ter dado baixa. Tenho um grande amigo desta época, meu colega de especialização na área de armamentos. Ele também pediu baixa e mora em Cuiabá. Aproveitamos estas redes sociais  e mantemos contato durante toda semana. Ele me contou que estava fazendo um  tratamento químico para combater um câncer e semana passada vi por suas fotos que ele perdeu todo o cabelo. Resolvi então rapar minha cabeça e mandar minhas fotos para ele, enquanto cortava meu cabelo. Dizendo que era minha forma de solidariedade, de apoiá-lo nesta luta que ele trava. Ele ficou emocionado e chorou e eu fiquei contente por ter podido mostrar-lhe minha amizade.” Surpreendente não? Tocante e invulgar prova de amizade e preocupação com um amigo.

ivarhartamnmn@hotmail.com

Ivar Hartmann é promotor público aposentado, colunista do Jornal NH, de Novo Hamburgo, RS.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *