Presente para os ausentes – por Ivar Hartmann*

A última semana antes do Natal é um reboliço na vida e cabeça de todos brasileiros. Parece que tudo que pode nos fazer perder tempo acontece. A data é inexorável: antes do dia 24, nas famílias brasileiras todos os presentes que serão distribuídos entre os familiares e empregados, devem estar prontos.

Embaixo da árvore natalina, seja pinheiro verdadeiro ou cópia plástica dele. São dias que mexem com a cabeça e o bolso da gente. Enquanto as crianças fazem listas do que querem receber ou passeiam pelas vitrines dos shoppings ou pelas vitrines da televisão em busca das novidades em brinquedos lindos para  cada um, mas despreocupadas – é claro – em saber qual é o valor, os adultos trocam mensagens cifradas sobre o que gostariam de ganhar no dia 24. Ou ficam na espera do bom gosto do Papai Noel real.

Não ligo Natal, mas, “Maria vai com as outras…” As ceias natalinas ocupam um dia inteiro, e assim, mais gente desesperada, ainda vai às compras de última hora. Sempre faço minhas compras com antecedência, para me livrar do calor e do empurra-empurra das multidões dos centros de todas as cidades brasileiras. Calçadas cheias, lojas cheias. Atendentes que querem rapidez nas compras e gerentes distantes para reclamações. Há dias saiu uma entrevista com psicólogos e psiquiatras para cuidarmos de não aumentar o stress no Natal. Como posso, nesta loucura de gente?

Evitar o stress com um trânsito caótico, estacionamentos longínquos e caros? Calçadas de empurra-empurra entre gente mal educada? E, na minha frente, um imbecil cabeludo, destes que a gente sabe que faz tempo não toma banho, teimava em andar devagar. Adepto sabe-se lá de que religião, cada vez que encontrava uma criança parava para, ante os olhares temerosos dos pais, dar-lhes as a mão magra de unhas largas. Garanto que sujas. Eu empurrava-o fazendo de conta que os atrás de mim é que empurravam! Ele voltava-se para trás e me sorria. Sorriso idiota! Calças gastas, sapatos sujos.

Que mais poderia eu querer em uma rua congestionada antes de chegar às lojas? Lá longe, na esquina, sobre um tamborete, o policial vigiava com seu binóculo, mas o mendigo não estava fazendo nada de mal. Verdade que não cheirava a álcool; na verdade, não cheirava a nenhum destes odores nauseabundos que nos causam repulsa. Passei, segui adiante e a multidão o engoliu. Só então pensei: e se fosse Jesus Cristo?
 
ivarhartmann@hotmail.com

*Ivar Hartmann é promotor público aposentado, colunista do diário Jornal NH, Grupo Sinos, Novo Hamburgo, RS, e colaborador do portal BrasilAlemanha e da mala direta BrasilAlemanha Neues.
 

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