De Drummond a Kafka – por Lissi Bender*

 Outro dia vinha minha amiga com seu carro pela Querpikade que ela carinhosamente chama de Quellepikade, na justa medida, por ser fonte e princípio de transformação do espaço natural para o cultural. O natural e o cultural se harmonizaram ao longo do tempo, e um mosteiro beneditino se integrou a esse mundo, agregando valor a nossa região e atraindo olhares de fora. A estrada permanece a mesma de quando o Gustav passava por lá a cavalo, a caminho do moinho, com seu saco de milho, quando o Heinrich levava o pasto em sua carroça para alimentar os porcos e o Teobald levava as abóboras e a banha para vender “lá fora”, na cidade.

O tempo passou. As carroças e os cavalos foram sendo substituídos por carroças motorizadas. Mas a estrada se preservou original, mais fiel que alguns legados culturais. Continua a receber o mesmo tratamento de outrora. Em tempo de chuva, e de inverno, aparece um solícito trator da Prefeitura empurrando as pedras de um lado para outro e está feita a manutenção. Às vezes, fica uma pedra no meio do caminho.

Pois vinha minha amiga na hora da Ave-Maria, pelo caminho que une, desde os primórdios da Colônia, a Alte com a Neue Pikade. A patrola havia passado há pouco, cumprira sua tarefa como desde sempre. No céu as primeiras estrelas anunciavam a noite, e eis que “no meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra no meio do caminho”. Não dava mais para desviar e uma enorme pedra varreu o carro por baixo.

Roncando estranhamente, levou seu Schimmel ao pronto socorro. A pedra no meio do caminho havia causado um belo estrago. Assim, a aventura de transitar de carro onde deveria usar carroça, de preferência de rodas altas, transformou-se em desventura. A estrada continua recebendo tratamento adequado para ser usada pelos meios de transporte de outrora. Curioso que em nossa região se mantenham estradas como antigamente, mas que não haja grande empenho para preservar casas, edificações, isto é, o patrimônio coletivo material e imaterial (isso inclui a língua alemã) que destaca o lugar,  confere-lhe singularidade. Quer dizer, mantém-se o que não se deveria mais manter e, o que se deveria manter, não recebe a atenção merecida. No entanto,  queremos Santa Cruz atraente para turistas.

E, além disso, quem ousa circular por nossas estradas de chão com um automóvel está sujeito a transformar uma questão drummondiana em kafkiana: precisamos colocar proteção de motor, porque as estradas do interior são ruins e, como as estradas são ruins, não se pode ficar sem proteção de motor. E como minha amiga não tinha proteção de motor, mesmo pensando que a tivesse, pois deveria estar lá, uma vez que foi colocada quando o carro saiu da concessionária – andou esse tempo todo pensando ter proteção debaixo de seu carro e não tinha!! Parte da questão está resolvida com a colocação da proteção do motor. A outra requer ações mais profundas e, principalmente, discernimento. Mas eis que me espreita a personagem de Kafka de dentro de sua parábola e sentencia: “Gib´s auf, gib´s auf!” Desista, desista!

*Lissi Bender é professora de Leitura e Produção de Textos, Língua, Literatura e Cultura Alemã, Subchefe do Dep. de Letras da UNISC – Universidade de Santa Cruz do Sul, RS, doutoranda na Universidade de Tübingen, Alemanha, comentaista do programa radiofônico AHAI – A Hora Alemã Intercomunitária/Die Deutsche Stunde der Gemeinden e colunista de www.brasilalemanha.com.br.
E-mail: lissi@unisc.br 

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