Uma questão de humanidade – por Arlindo Mallmann*

Obs.: Artigo escrito em 24 03 2005 para o jornal O Solidário, da Arquidiocese de Porto Alegre, RS, quando João Paulo II ainda era o Papa e suscitava os questionamentos nele contidos. Aprovado pelo editor do jornal, o autor recuou e preferiu "não cometer tamanha ousadia naquele momento crucial", conforme revelou. Hoje a situação é outra, bem mais propícia  para uma sincera exposição de motivos. Deixe seu Comentário no espaço reservado para tanto, logo abaixo  – Redação BrasilAlemanha.


            Muitas vezes me vi a refletir sobre o fato de se obrigar a pessoas de altas responsabilidades mundiais a simplesmente fenecerem em seus cargos, digamos, de forma desumana, sem alívio de sua carga, até o último suspiro.

            Isso não é justo, nem humano.

            A sociedade civil prevê uma idade para o crescimento, uma longa vida de trabalho e um período de ocaso.

            Os institutos de aposentadoria prevêem épocas próprias para aposentadoria, para o final da vida produtiva.

            O início da aposentadoria pode variar muito de atividade para atividade e de país para país e no tempo também, e agora mais ainda, com a melhoria da expectativa de vida.

            No Brasil, a Previdência havia previsto uma vida contributiva de 35 anos para homens e 30 para mulheres. Assim os homens poderiam aposentar-se a partir de 53 anos.

            A vida média do homem brasileiro estava em torno de 55 anos. Não sobraria ao aposentado  grande sobrevida para ser gozada numa tranqüila aposentadoria. Hoje está em torno de 70 anos no Brasil.

            Em muitos países existe a aposentadoria compulsória aos 70 ou 75 anos de idade, com tendência para se fixar nesse último patamar. 

            A Igreja Católica estabeleceu um ritual de ingresso na aposentadoria para as suas lideranças episcopais, fazendo com que os Bispos solicitassem seu desligamento das responsabilidades pelo governo  de suas dioceses ao completarem 75 anos. Por outro lado, limitou a 80 anos a idade máxima para que Cardeais pudessem exercer o direito de voto, nos Consistórios reunidos para a eleição de um Papa.

            Essa providência proporcionou um rejuvenescimento razoável nos quadros da Igreja, no mundo.

            No período anterior à Perestroika soviética, o mundo ficou sobremaneira impressionado com a equipe gerontológica que se estabeleceu na cúpula do Estado Soviético, dando a impressão que o organismo mesmo do Estado sofria dessa mesma esclerose.

            Na própria China, apesar de seu número quase infinito de habitantes, a cúpula também não se renovava, numa determinada época.E  não se podia dizer que fosse de  jovens rapazes. Muito ao contrário.

            Nas monarquias ainda existentes tem  havido casos de Chefes de Dinastias que chegaram a idades  muito provectas sem passarem o bastão a pessoas mais jovens.

            Mas houve  casos também de renúncias em favor de gerações mais modernas e jovens, apaziguando a impaciência das mesmas e arejando a vida das sociedades nacionais.

            Em muitas congregações religiosas, os superiores gerais já não são mais eleitos para cargos vitalícios, com certeza com grandes ganhos.

            A rotatividade nos comandos tem o seu valor. As democracias que renovam os seus quadros sistematicamente podem comprová-lo.

            A permanência de líderes, em qualquer tipo de sociedade, por tempo demasiado longo, pode não ser tão proveitosa como se gostaria.

            Na verdade, esse fato favorece a perpetuação de lideranças conservadoras e dificulta a sua renovação e o arejamento das idéias e estruturas.

            Acho, pessoalmente que a Cristandade poderia, sem perda de valores e sem afetar a sua vida, estabelecer formas de mudança de seu comando supremo, sempre que o exercício do mandato implicar em demasiado ônus físico e mental para o Supremo Pastor.

            Sabemos todos que a idade avançada impõe sacrifícios  e limitações.

            Não se pode impor a uma pessoa idosa, já fragilizada por contingências próprias de suas condições e por doenças das mais variadas origens, o exercício de um cargo de tanta responsabilidade, sem limite de idade.

            Por mais que a pessoa do Bom Velhinho nos seja cara e simpática, a Igreja precisa encontrar uma forma de se mostrar caridosa para com os seus Supremos Pastores, permitindo-lhes uma velhice digna e, mesmo, um descanso de suas responsabilidades.

            Por mais assessores que o Papa possua, sua privacidade está sendo por demais invadida pela “media” dos dias atuais.

            Como católico me sinto agredido pela forma como é violentada a imagem e a dignidade do Sumo Pontífice, fazendo com que tenha de suportar solenidades e celebrações longas, movimentadas e intermináveis.

            Acho que seria um ato de caridade cristã se fossem  estabelecidas  normas mais humanas para o exercício desse verdadeiro ministério papal.

            Se voltarmos os olhos para as últimas décadas, poderemos vislumbrar as dificuldades enfrentadas pelos papas  Pio XII, João XXIII, Paulo VI, João Paulo I e agora (2005!) João Paulo II.

            Os Papas provavelmente nunca reclamaram de seus encargos.

            O povo cristão é que tem de ver isso.

            Se o próprio povo cristão não o  vê,  ou faz que não vê, é porque acha que  não tem voz e não tem voto para fazê-lo.

            Mas será que não deve ser feito?          

            Quantos Papas ainda teremos de ver padecer na sua velhice, expostos e explorados por um mundo cada vez mais sedento de  sensacionalismo e de imagens, quanto mais sofridas melhor?

            Tenhamos misericórdia de quem tanto já fez pela Cristandade.

            Sou solidário com o Papa, mesmo que Ele, na sua profunda  vivência cristã,  se abandone totalmente à  Providência Divina. Mesmo assim, continuo a  achar que não deve ficar tão exposto ao mundo todo,  nesses momentos de seu sofrimento.

            Deve haver limites e alguém deve se responsabilizar por eles.

            Ou será que os bastidores do  Vaticano e da Igreja são tão  perigosos ou tão misteriosos que inspiram tanta cautela que nem o próprio Papa pode ter um sucessor em vida?

            Se a Igreja é de origem divina, por que tanto temor?

            Se Deus esteve com a Igreja e com os Papas até hoje, por que não estaria também com a Igreja nos casos de um Papa renunciar e passar o “Munus Pastoral” para um sucessor legitimamente eleito?

            Não funcionam as democracias assim, após haverem sucedido, inclusive. a monarcas que assim se consideravam por “direito divino”?

            Seguramente Deus não age ostensivamente na História. Age através de decisões provocadas por  iniciativa humana.

            Na minha opinião, não faltam foros na Igreja para tomar uma iniciativa nesse sentido.

            O que seria de lastimar é que à falta de decisões  oportunas agora, voltem a procrastinar o assunto para daqui a outros 15, 20 ou 25 anos, para voltar a se manifestar com intensidade crescente, graças aos meios de comunicação cada vez mais poderosos,  onipresentes, infiltrados em todos os ambientes, mesmo no mais recôndito dos aposentos apostólicos.

 
*Arlindo Mallmann teve formação seminarística, é economista e cristão engajado em várias frentes, ex-presidente do Centro Cultural 25 de Julho de Porto Alegre, membro da Comissão Executiva das Comemorações do Triênio dos 188-190 Anos da Imigração Alemã (1824 – 25 de julho – 2014) e portador da Cruz do Mérito da República Federal da Alemanha.

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