Por Sérgio Agra
Na sexta-feira, 23 de julho, a imprensa gaúcha noticiou a polêmica causada pela escolha da rainha da Oktoberfest de Santa Cruz do Sul, edição 2010.
Eis que, lépida e faceira, surge a estampa da morena de olhos castanhos, cabelos negros de Maíra Farinon, ungida pelos jurados para carregar a coroa da já tradicional festa santa-cruzense.
As vozes exaltadas dos opositores é a de que a soberana do evento deva, não apenas ser de descendência e de traços germânicos – loira, olhos azuis e um sobrenome quase impronunciável –, mas nascida naquele município.
Buscando, um tanto que forçadamente o que exprime o Art. 1º do Código Penal Brasileiro – “Não há crime sem lei anterior que o defina. Não há pena sem prévia cominação legal” – o próprio regramento que norteia o concursa alija as controversas manifestações. É, pois, a anterioridade da lei. Fulmina-se qualquer contra-argumentação de que “em Santa Cruz a Oktoberfest sempre foi assim” ao evocar-se o ano de 1990, cuja soberana fora, ainda que de origem germânica, uma concorrente de cabelos negros.
A Alemanha, esplendoroso berço dos ancestrais da ordeira e progressista cidade de Santa Cruz do Sul, não deslumbrou o mundo na última Copa com seu mágico e encantador futebol com Klose, Podolski e Trochowski (poloneses); Cacau (brasileiro); Marim (bósnio); Oezil e Tasci (descendem de turcos); Kedira (filho de tunisiana e pai alemão); Boateng (filho de ganês e mãe alemã); e Mario Gomes (filho de espanhóis)?
A morena “italiana” que conquistou a coroa de Rainha do Feijão, na Festa Estadual do Feijão de Sobradinho, em 2008, e ora mexe com o orgulho saxão da comunidade santa-cruzense, muito mais condiz, é certo, com o título de “Rainha da Polenta e do Radicci”. No entanto, em que pese, salvo melhor juízo, o afã em nada lúdico da jovem em “conquistar títulos” de tradições citadinas, à Maíra permitam-na reinar, soberana, lépida e faceira. Não lhe impeçam – como diria Andy Warhol – os quinze minutos de fama a que todo o ser humano tem de direito.
*Sérgio Agra é advogado e escritor – autor do livro “Mar da Serenidade"
agraeagra@terra.com.br
Fonte: Gazeta do Sul, Santa Cruz do Sul, RS - 26 07 2010
Comentários Ver todos os comentários (12) - diário Gazeta do Sul
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27/07/10 por Flávio Nascareda de Imbé
Discordo do cronista. Há uma música do Falcão que diz que “homem é homem, mulher é mulher e”... por aí vai. A festa é de origem germânica, nada mais natural que eleja uma “rainha” desta origem. Não se pode imaginar, por outro lado, a rainha do carnaval do RJ sendo uma helvética, melada, quase albina. Ou, na festa da colonização japonesa, em SP, se eleja como símbolo uma linda e deslumbrante multa. Não há nada de racismo ou preconceito, apenas a contextualização do evento. Caso contrário, vivencia-se a contemporaneidade do não-coetâneo. Acho que a festa de Santa Cruz deveria ter como rainha uma linda loira de olhos azuis, com o sobrenome, por exemplo, Ambrastailigner. Não dá para comparar, de resto, o futebol com uma festa dirigida. Futebol é esporte, jogo coletivo, admite a diversidade. A festa alemã todos são bem-vindos, não interessa sexo, cor, religião. Mas a sua rainha tem de seguir a etnia.
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