Um reinado para representar a participação alemã
Por Lissi Bender Azambuja*
“Ninguém pode ser um bom brasileiro, se não honrar sua herança cultural.” Bento Munhoz da Rocha (1905 – 1973)*- sociólogo, escritor, professor, governador do Paraná e Deputado Federal. „Niemand kann ein guter Brasilianer sein, der nicht seinem kulturellen Erbe Ehre macht“.
De tudo quanto tenho lido a respeito da polêmica que se criou em volta da eleição da Rainha da Oktoberfest 2010, chama-me a atenção o quanto essa discussão passa longe do sentido, do significado primordial da Oktoberfest para a região. A polêmica fica reduzida a meros preconceitos. Ora, deixa de ser tênue a linha divisória que separa preconceito de preocupação para com a herança cultural dos descendentes de alemães de Santa Cruz, que encontra na Oktoberfest seu esteio de manifestação. O que não vejo ser discutido é: a posição histórica de Santa Cruz dentro do contexto da imigração alemã e, portanto, dentro do contexto da história do Rio Grande do Sul. Nada se fala sobre a participação alemã na construção do lugar; sobre a importância de seu legado cultural.
A discussão fica num plano muito rasteiro, rotula-se toda e qualquer observação contrária de preconceituosa e na afirmação de que vivemos outros tempos, de que Santa Cruz é uma cidade cosmopolita. Certamente mudanças são inerentes a qualquer lugar. Mas acho que podemos ser cosmopolitas mesmo mantendo o coração pulsando a essência que constituiu o lugar, o que o faz diverso de outros, e isto Santa Cruz deve continuar se esforçando por celebrar. Até mesmo a capital do estado mais tradicional da Alemanha, Munique (que ensejou o nome para a nossa festa), se apresenta como Weltstadt mit Herz - Metrópole mundial com coração, quer dizer, aberta à incorporação do novo sem abrir mão do cerne de sua identidade.
Neste sentido é preciso de muito discernimento na escolha de quem vai incorporar a alma do lugar e, portanto, da festa para representá-la. Por isso, critérios como ser da região de abrangência da original Colônia Santa Cruz, conhecer profundamente a história, trajetória e participação dos alemães e de seus descendentes na construção da região e, principalmente, conhecer o legado e a língua alemã são itens que merecem ser contemplados. As soberanas da festa deveriam possuir domínio básico do idioma alemão existente que se constitui em um dos mais valiosos patrimônios imateriais da coletividade regional, independentemente da cor de seus olhos e de seus cabelos.
Por tudo isso, caro Sergio Agra, sua comparação (veiculada neste jornal, em 26.07) da seleção de representantes para o município de Santa. Cruz com a seleção de futebol da Alemanha revela um grave equívoco. Senão, vejamos: os atletas são escolhidos a dedo e a peso de ouro para assegurar alegria para o povo alemão, independentemente de sua origem. Eles não têm nenhum comprometimento nem com a história, nem com a cultura da Alemanha. O compromisso é jogar bem e alegrar a turba, além, é claro, de encher as burras de seus clubes.
Já a nossa seleção de soberanas é escolhida para representar o município, além de conferir brilho e visibilidade à Oktoberfest que sintetiza a trajetória do lugar. Por isso, precisa estar imbuída de um compromisso muito maior do que fazer a alegria do povo. Este reinado precisa corporificar a história peculiar deste lugar que se destaca dentro do contexto da história do RS. Por isso precisa demonstrar afinidade e compromisso para representar a herança cultural da etnia convidada a iniciar a transformação desse espaço natural em espaço cultural e toda sua contribuição para a construção da região. Para poder divulgar aquilo que faz o nosso lugar ser diverso de outros, para apresentar aos visitantes seus bens materiais e imateriais. A Oktoberfest é o único grande momento que Santa Cruz oficialmente promove para honrar esta participação. E o tem feito muito bem em todos esses anos, tanto que ela cresceu e projeta Santa Cruz e região no cenário nacional.
E para isso continuar acontecendo, caro Agra, não há necessidade de uma lei, há a necessidade, sim, de conhecer profundamente a história da participação alemã para construir um olhar mais atencioso, e reconhecer que Santa Cruz tem uma trajetória diferente de outros lugares, cuja herança cultural merece ser prestigiada, a língua deve ser cultivada para que a região toda se beneficie dessa realidade e possa, por esta via, promover um desenvolvimento diferenciado de outros lugares, posto que valoriza e cultiva suas peculiaridades.
*Lissi Bender Azambuja é santa-cruzense, mestre em Desenvolvimento Regional, doutoranda em Antropologia Cultural e coordenadora dos Encontros Culturais em Língua Alemã da UNISC – lissi@unisc.br
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