Sílvio Aloysio Rockenbach*
Antes do terrível terremoto do Haiti, a cidade gaúcha de Agudo esteve, durante uma semana, a partir da terça-feira 05 de janeiro, na mídia nacional e internacional. Correu mundo aquela foto da ponte parcialmente interrompida sobre o rio Jacuí na rodovia RSC 287, que corta as várzeas de arroz irrigado entre os municípios de Agudo e Restinga Seca e que liga as cidades universitárias de Santa Cruz do Sul e Santa Maria, na região Central do RS.

Fotos Igor Müller em Gazeta do Sul, Santa
Cruz do Sul, 06 01 2010
Uma terça-feira depois, dia 12, quando as buscas pela localização de duas de um total de cinco vítimas fatais e as causas do desabamento parcial da ponte ainda mantinham acesas as atenções, sobreveio o terremoto no Haiti, com conseqüências infinitamente mais devastadoras e que sufocaram o noticiário sobre Agudo.
Mesmo assim, vale a pena lembrar que Agudo, hoje um município próspero de 17 mil habitantes, teve um início traumático há exatos 153 anos. O trauma, superado com persistência pelos recém chegados, também esteve vinculado ao rio Jacuí, como veremos logo a seguir. Agudo se tornaria, duas décadas depois, também o berço de uma das maiores multinacionais do Brasil, graças ao talento e espírito empreendedor de um imigrante pioneiro, de nome João Gerdau, vindo da região da cidade hanseática de Hamburgo.
Na ocasião, em novembro de 1957, não foi a fúria das águas que marcou o destino dos seus imigrantes pioneiros, mas sim o fim-de-mundo a que eram levados seus primeiros desbravadores. O prometido porto a que se referia o comandante da frágil embarcação não chegava nunca. A imensidão das florestas, o rugir dos animais ferozes, o desespero que tomou conta dos passageiros, desgastados pelo longa travessia do Atlântico, pela expectativa de terra firme entre o Rio de Janeiro e Porto Alegre, via Rio Grande, elevou o clima de revolta depois que se perdeu a última referência geográfica e humana que ainda lhes restava, a colônia de Santa Cruz do Sul, outra iniciativa do governo provincial, que acabara de ficar para trás.
A dramaticidade da situação vem descrita por uma testemunha privilegiada da época, Peter Rockenbach, que vem a ser meu bisavô. Ela vem reproduzida no clássico “Hundert Jahre Deutschtum in Rio Grande do Sul: 1824-1924” (“Cem Anos de Germanidade no Rio Grande do Sul: 1824-1924”), editado em 1924 pela Verband deutscher Vereine - Federação das Associações Alemãs, em Porto Alegre, pela Typographia do Centro e lançada em português pela Editora Unisinos de São Leopoldo, RS, em 1999, perfazendo 645 páginas, com primorosa tradução do historiador Prof. Dr. Arthur Blasio Rambo.
Nas páginas 86 a 88 da versão em português ficou registrada a seguinte inovação: “O desenvolvimento promissor de Santa Cruz do Sul, a primeira colônia provincial (até então a colonização era iniciativa do governo imperial – nota BrasilAlemanha/Neues), incentivou colonizações novas nos mesmos moldes. A Colonia Santo Ângelo, no (então) município de Cachoeira, localizada entre a serra e o campo (pampa), na margem esquerda do rio Jacuí, foi a seguinte.”
E prossegue a obra clássica: ”A respeito da fundação desta colônia dispomos de um escrito de Peter Rockenbach que, como criança, acompanhou os acontecimentos, vivendo dias bons e ruins na colônia. Escreve ele: “O dia 1º de novembro é considerado por todos como o dia da fundação da colônia Santo Ângelo, porque foi neste dia que o primeiro diretor da colônia, Floriano Zorowski, chegou aqui ‘no porto da colônia’ no Jacuí, com o grupo pioneiro de imigrantes a bordo de um vapor. Integravam o grupo as famílias Barth, Finger, Fiss, Holz, Neujahr e duas famílias Poetter.”
“Na medida em que o vapor se aproximava, os colonos procuravam enxergar o “porto da colônia”. Quando finalmente atracou e viram “o porto”, imediatamente se flagraram da situação real da nova colônia e quiseram dar meia volta. Mas, de qualquer forma, decidiram desembarcar e subir no barranco, mesmo que fosse apenas para dar uma olhada. Também isso não deu em nada, pois o caminha levava para dentro do mato que impedia uma visão mais para longe. Retornaram decepcionados e encontraram seus pertences descarregados e o navio a caminho de volta. Agora sim a lamentação foi grande, porque o retorno se tornara impossível. Concordaram que seus pertences fossem carregados em carretas e transportados até a casa do imigrante. Mas uma nova decepção esperava por esse povo. A casa nem sequer fora erguida e a maioria dos demais abrigos estava ocupada. Neste momento, para muitos terminou a paciência e ameaçaram o diretor que os acompanhava e, sobretudo, o intérprete do governo Carl Jansen, que os conduzira até aí. Mas, por mais que inssistissem, a situação não mudou em nada. A ordem aqui era: “Pássaro, devora ou morre! - Friss, Vogel oder stirb” – e eles devoraram. Com decisão puderam mãos à obra e construíram um abrigo provisório com os materiais disponíveis. A aparência era estranha, mas não deixava de ter a sua serventia.”
“A segunda leva de imigrantes chegou aqui no dia 25 de novembro, desta vez por terra desde Cachoeira, em quatro carretas. Eram 13 famílias e alguns solteiros. Desta vez os recém-chegados encontraram um telhado para se abrigar, embora a construção não passasse de um galpão aberto, sem portas e sem janelas.”
“Em dezembro aconteceu a destituição do diretor da colônia. Em seu lugar foi nomeado o Barão de Kahlden, que assumiu o posto ainda naquele mês e veio acompahado pelo terceiro grupo de imigrantes, integrado por “Brummers”, companheiros de luta do novo diretor (contratados pelo Governo Imperial para as guerras de fronteiras com os vizinhos do Prata – Nota BrasilAlemanha/Neues). Esses, como já tinham estado mais tempo no País e conheciam melhor as circunstâncias e não querendo comprar gato ensacado, viajaram todos a cavalo, tendo avaliado a empreitada antes de deslocar-se com todos os seus pertences. O novo diretor (que chegou a ser influente deputado provincial – nota BrasilAlemanha/Neues) impôs imediatamente um novo ritmo na construção do pavilhão que serviria de abrigo. As medições também progrediram de tal forma que a 1º de janeiro de 1858 efetuou-se o primeiro e, no dia 8 de janeiro, o 2º sorteio de lotes coloniais.”
“Feito o sorteio, foi a vez de vistoriar as colônias distribuídas. Muitos constataram então que elas se localizavam a uma e meia a duas horas distantes da respectiva picada. Começou a derrubada do mato que exigia que os homens permanecessem uma semana inteira nas suas colônias e só regressassem aos domingos para encontrar a família no alojamento. Um tempo difícil para os imigrantes aquele em que cessou o fornecimento de subsídios antes de terem colhido o alimento suficiente. Por sorte, um brasileiro de nome Chico Loredo abrira uma casa comercial e vendia fiado aos colonos com vistas à futura colheita. Costumavam dizer vamos “investir num fiado no Chico”. Quando, após algum tempo, não havia mais fiado, as pessoas queixavam-se dizendo “Meu fiado quebrou”. Assim, venciam as dificuldades dos primeiros tempos da maneira como era possível.” Eis o que escreveu o nosso informante Rockenbach sobre os começos da Colônia Santo Ângelo.”
Imbuídos do mesmo espírito de solidariedade e ajuda mútua, fundamentadas no tripé escola-igreja-clube, comum a todas as colônias alemãs da época, Agudo cresceu, desenvolveu-se, emancipou-se e foi berço de um exemplo extraordinário de empreendedorismo que hoje orgulha a nação brasileira. Foi ali, em Agudo, que nasceu, no início dos anos 1880, a primeira casa comercial de João Kaspar Gerdau, segundo descrição circunstanciada do historiador local Wiliam Werlang, autor e editor do livro “A Família de Johannes Heinrich Kaspar Gerdau: um estudo de caso sobre a industrialização no Rio Grande do Sul, Brasil". Editora Werlang, Agudo, 2002, 232 páginas.
Agudo e seu contexto
O município de Agudo, emancipado de Cachoeira do Sul em 1959, tem hoje 17 mil habitantes, em sua imensa maioria de origem alemã, fica a 83 m de altitude e a 242 km de Porto Alegre, e ostenta o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal 0,786, com um PIB per capita de R$ 10.499,00 (dados de 2006), construído especialmente em cima de vastas culturas de arroz irrigado em suas enormes planícies e de tabaco nos terrenos ondulados e até pontudos, de onde surgiu o nome Agudo. Cerro Branco, Paraíso do Sul, Ibarama, Sobradinho, Nova Palma, Dona Francisca e Restinga Seca são os municípios lindeiros.
Pelo projeto de 1959, concluído em 1963, a ponte na RSC 287 sobre o rio Jacuí é de concreto, com 314 metros de extensão. São seis pilares intermediários e dois encontros de concreto fechados nas extremidades. Os cinco vãos centrais medem 42 metros e os dois vãos extremos, 36 metros.
O rio Jacuí nasce no Planalto Médio, na região de Passo Fundo, no Centro-Norte do RS, e desemboca, junto com os rios Caí, Sinos e Gravataí, no Lago Guaíba, na região metropolitana de Porto Alegre, escoando-se no Atlântico, no superporto de Rio Grande, depois de alimentarem por mais de 300 quilômetros a Lagoa dos Patos. Pois este rio Jacuí, o mais longo e caudaloso do RS, com participação de 84% no volume do Lago Guaíba, teve influência decisiva, dramática e traumática já na fundação de Agudo, há 153 anos, conforme acabamos de ver.
*Sílvio Aloysio Rockenbach é editor do portal BrasilAlemanha e do informativo Neues. Além de apresentador do programa radiofônico semanal AHAI - A Hora Alemã Intercomunitária/Die deutsche Stunde der Gemeinden, transmitido por uma rede de emissoras, entre as quais a Rádio Agudo AM, em breve levará ao ar o programa televisivo semanal Conexão BrasilAlemanha pela Rede Vida de Televisão, em âmbito nacional, com apresentação da jornalista Tatiana Rockenbach.
Fica aqui o convite e o desafio ao Grupo Gerdau para cerrar fileiras em torno de uma nobre causa, tornando-se o primeiro patrocinador oficial do programa, para, em sua esteira, arrastar o co-patrocínio de outras empresas brasileiras que queiram ver-se identificadas com uma grife cada vez mais em voga - a da qualidade alemã.
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