Zilda Arns: Nobel póstumo. Zilda Arns: mulher do bem
Zilda Arns: Nobel póstumo
Ivar Hartmann*
Zilda Arns, idealizadora e administradora da Pastoral da Criança, foi indicada para o Prêmio Nobel da Paz em 2001, 2002 e 2003. Não ganhou. É improvável que o leitor lembre-se dos ganhadores deste prêmio naqueles anos, afora o último, dado a um falcão da guerra: Barak Obama. Zilda morreu agora no Haiti e foi a pior perda do cataclismo entre tantas dezenas de mortos, ilustres ou não, conhecidos ou anônimos, sorvidos pela tragédia de poucos dias atrás. Perda não do Brasil, mas da humanidade. Fazendo uma análise dos números da Pastoral da Criança, a catarinense Zilda foi a maior mulher brasileira do Século XX, e, por sua trajetória, uma daquelas que ombreia com as mais importantes e conhecidas mulheres líderes mundiais. Os números que vem a lume nestes dias impressionam pelo gigantismo. No dizer da própria Zilda, medidas simples e baratas, como ferver a água a ser dada para as crianças, lavar as mãos, usar soro doméstico, alfabetizar as mães e ensinar-lhes um ofício, transformou os números da mortalidade infantil. E levou a Pastoral da Criança do Brasil a cruzar fronteiras para outros 27 países latinos e africanos.
O teste inicial destas propostas de Zilda, há cerca de trinta anos, fez cair a mortalidade infantil no município-cobaia de 127 óbitos por mil, para 20 por mil. Não havia dúvida: eram medidas inovadoras no trato da mortalidade infantil entre as populações mais carentes e que davam resultados para lá das melhores expectativas. E os números cresceram depressa. Hoje são 1,8 milhões de crianças atendidas do zero aos seis anos de idade. Por 260 mil voluntárias em 42 mil comunidades pobres de mais de 4 mil municípios brasileiros. Afora as quase cem mil gestantes que buscam informações e auxílio. Os números da mortalidade infantil desabaram no Brasil, graças a Zilda e seus ensinamentos. Mais, em um país de corruptos, nunca se ouviu uma informação desabonatória a este trabalho gigantesco. Pelo simples fato de as 260 mil voluntárias, moradoras das regiões que a Pastoral atende, trabalharem de graça. Questionadas sobre nada ganharem afirmam: realizamos-nos com o reconhecimento das pessoas. Obra e resultado deste porte levam a vida e a morte para outra dimensão. E é obrigação do Governo brasileiro e da própria Pastoral propor e defender o nome de Zilda para um Nobel de reconhecimento póstumo.
O poeta e ensaísta mexicano Octávio Paz (1914-1998) dizia que aquele que morre de um jeito diferente do que viveu é porque não foi sua a vida que viveu. Penso que esta máxima é perfeita para dizer de como foi a vida e a morte da médica, pediatra e sanitarista Zilda Arns (1934-2010). Zilda Arns foi uma das vítimas brasileiras no terremoto que assolou a República do Haiti no dia 12 último. Nascida no pequeno município de Forquilhinhas-SC, se transformou em cidadã do mundo. Dedicou sua vida a organizar os mais desprotegidos deste Brasil. Ao mesmo tempo em que era de uma doçura e amorosidade imensas, Zilda demonstrava imensa força quando se tratava da defesa da saúde pública, em especial de crianças em situação de desnutrição e de mulheres carentes das comunidades pobres do Brasil. Sua amorosidade não desaparecia nem mesmo quando precisava defender suas teses contra a insensibilidade de poderosos e governantes inescrupulosos. Mesmo nesses casos, ninguém nunca a via levantar a voz. Conseguia mostrar que gritar, ou falar alto, via de regra, é atitude de quem tem poucos argumentos ou coisa de prepotentes. Mesmo nos debates mais acalorados falava sem gritar. Mantinha a serenidade e o sorriso de quem sabe o que quer. De quem sabe que está do lado certo.
Esta mulher, que viajou o mundo, sempre retornava ao lugar que, segundo ela, mais a fazia feliz: o Brasil. Sua dedicação às causas dos pobres lhe valeu grandes alegrias. Seu trabalho foi reconhecido em muitos países e em todos os continentes. Recebeu prêmios e condecorações que ela, na sua simplicidade e humildade, dedicava aos que com ela trabalhavam. Entre os tantos prêmios merecidos que recebeu foi indicada para o Prêmio Nobel da Paz. Entre as tantas entidades que ajudou a organizar, uma delas lhe era muito cara: a Pastoral Nacional da Criança. A ela, dizia, dedicava suas mais delicadas e fortes energias. Foi sua fundadora em 1983 e permaneceu como coordenadora até a recente morte. Aonde ia, Zilda Arns levava o nome, a mensagem e a prática de trabalho da Pastoral da Criança no Brasil. Prática esta, que foi seguida e imitada por centenas de outras entidades pelo mundo todo. Talvez poucas pessoas sejam tão conhecidas e reconhecidas fora deste país como a brasileira Zilda Arns. Mulher de fala mansa. De olhar denso. Gestos calmos e sorriso largo. Mulher que soube, como poucos, mostrar a força do frágil num mundo de tantas brutalidades. Zilda Arns morreu no lugar onde passou grande parte de sua vida: nos haitis de lá e daqui. Zilda Arns, Mulher do Bem!
*Valdo Barcelos é professor da UFSM - Universidade Federal de Santa Maria, RS, ecologista, escritor.
Fonte: Gazeta do Sul, Santa Cruz do Sul, RS - 15 01 2010
Site: www.gazetadosul.com
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| Comentários de nossos leitores: |
Deise Tallarico Pupo Além de todos os adjetivos que foram muito bem colocados nas matérias, quero acrescentar que ela foi uma CRISTÃ acima de tudo, pois inspirou-se no Evangelho de Jesus para iniciar a sua grande obra, alicerçada no conhecimento e no amor ao próximo; o prêmio, a meu ver, é justo, mas apenas um detalhe! Ela era uma pessoa simples, que dispensava holofotes e mídia e mesmo assim, conseguia tudo que queria com determinação e muito trabalho! A Terra perdeu uma grande mulher, mas o céu ganhou uma estrela.
Rita Dultra Amigos,
Realmente, este é um exemplo de vida a ser seguido!
Mulher iluminada e sábia merecedora de muitos premios em reconhecimento ao valioso e significativo trabalho desenvolvido ao longo da sua existência.
Muita Luz para Ela que foi, é e será sempre uma lembrança do Bem.
Abraço fraterno,
Rita Dultra
fatima Sou fã do trabalho da Drª Zilda, há muitos anos, só acho que precisou que ela morresse para que seu trabalho fosse tão difulgado e sua pessoa reconhecida.
Melsene Ludwig Me parece que a melhor homenagem que se pode prestar a esta ilustre mulher brasileria é dar continuidade e multiplicar o trabalho que ela prestou incansavelmente, sempre de coração aberto, dando atenção e carinho às crianças, às mães/mulheres e aos idosos.
Bonifacio O mais importante agora não é um Prêmio Nobel "póstumo", mas sim a introdução da Causa de Beatificação! A Dra. Zilda foi SEMPRE uma mulher de Igreja, de oração, de vida sacramental! Quem conhece a sua história de vida sabe que desejou inclusive fazer-se religiosa para servir as crianças desamparadas!
A sua obra gigantesca é fruto de uma vida interior intensa...assim foram os grandes santos da Igreja!SANTA ZILDA ROGAI POR NÓS!
Marlene Souza lopes Ela não viveu para receber prêmios. Ela praticou a máxima que a todos deveria nortear. Amai-vos uns aos outros, com todo seu coração e sua vontade de mudar. Se fosse possível instituir um prêmio desses, seria importante para vir os recursos para o programa que tanto ela lutou. Ela ficará na lembrança de todos como uma Luz de esperança e de que é possivel mudar a realidade social do Brasil esquecido. Abraços
Maria gorete Ribeiro Tudo que falarem de bom da DrªZilda é pouco! E o premio nobel que ela não recebeu é sem importancia comparado com o premio que receberá agora ao lado do SENHOR da vida.
ernesto Nada mais justo, porque sabemos que isso deixaria ela muito feliz, seria um reconhecimento para ela mesmo sabendo que sua humildade e simplicidade a limitasse a um meigo sorriso, mas mesmo assim uma luz sairia dela passando sua alegria para nós todos. Zilda aqui em Natal, um reporte falou que quem foi lhe receber no portão do Ceu foi o próprio Deus e que ao lado dele de braços abertos estava Madre tereza, Irmã Dulce, Frei Damião, Dom Nivaldo Monte, eu digo, João Paulo II, entre outros tantos...
MERY PAUL Sou Presidente da entidade MUTIRÃO DO AMOR-Sociedade Beneficente. Conheci pessoalmente a Dra. Zilda Arns no dia 30 de agosto de 2004 quando recedbeu o Título de Cidadã Honorária de Joinville, Santa Catarina, na Sessão Solene da Câmara de Vereadores. Com o plenário do Poder Legislativo lotado, diversos oradoreds falaram da trajetória de vida da homenageada, cumprimentando-a com emoção pelo exemplo que transmite ao povo brasileiro, de fé, sabedoria e determinação em salvar vidas.
antonio johann Ivar Hartmann é o promotor mais sensato que conheci na minha vida profissional.
Como sempre, artigo de sua lavra tem conteúdo e brilhante idéia de homenagem a ser prestada. Parabéns. johann
claudia bernhardt Nossa Madre Teresa de Calcuta brasileira, Zilda Arns, não so deveria ser ganhadora do NOBEl mas deveria ser santificada.
Ela não ganhou o NObel pois ela trabalha pela vida e os premiados pelo Nobel trabalham pela morte
Ivone Wiest Parabéns pela reportagem. Drª Zilda Arns merece. De fato, é a GRANDE MULHER da virada do século. Precisamos homens e mulheres profetisas, a exemplo de Zilda, especialmente neste momento da história, em há há tanto sofrimento.
Ivone
José Alves Longe de tentar desmerecer a imagem de Zilda Arns, um esclarecimento é oportuno antes que uma enorme frustração se alastre dentre os destinatários da mensagem original.
Por força de seu regulamento, o Prêmio Nobel só é concedido a pessoas em vida.
Não há prêmio póstumo.
A exceção é para os casos em que a morte tenha ocorrido entre o anúncio da premiação e de sua entrega propriamente dita.
Deve haver outras formas de reconhecimento mais viáveis e tão distiguidoras para o caso.
Altair Reinehr Faço minhas as palavras do Dr. Ivar Hartmann e do Prof. Valdo Barcelos. Nota "10*****" aos dois! É! A Dra. Zilda Arns foi uma mulher brasileira - catarinense de Forquilhinha - que com certeza - como poucos - orgulhou e continuará orgulhando a "todos os BRASILEIROS DE BOA ÍNDOLE!" Mas, um "Prêmio Nobel", seria uma HONRA OU UM DEBOCHE...?! Se olharmos os fatos, "BARAK OBAMA", o último agraciado, e em 1986, "ELIE WIESEL...", eu fico com um pé atrás...! Fosse eu - em tal contexto - não aceitaria...!
Adalberto Day Nada mais justo que uma grande homenagem a essa mulher maravilhosa.
“Palavras são poucas para expressar o trabalho de Dona Zilda, ela transcende a todos nós humanos, ela é uma Luz Divina que brilhará para sempre no universo”
O sentimento de nós humanos nunca chegará ao brilhantismo dessa mulher catarinense. Que siga em paz sua Luz será sempre vista e acompanhada.
Por isso 1 ano LUZ Divino de silêncio.
Abraços Adalberto Day cientista social e pesquisador da história
Blumenau SC
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