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Cooperação Acadêmica Brasil-Alemanha - por Gerhard Jacob, ex-reitor da UFRGS

BRASIL E ALEMANHA, QUASE DOIS SÉCULOS DE INTERCÂMBIO E COOPERAÇÃO CIENTÍFICA

por Gerhard Jacob*

1. Resgatando o passado

Muitos dos imigrantes que vieram ao Rio Grande do Sul a partir de 1824 eram também artesões. Isso favoreceu o início do desenvolvimento industrial do Estado, com reflexos altamente positivos até hoje, graças ao surgimento de um diversificado parque industrial, especialmente de mini, micro e médias empresas. Enquanto boa parte dessas empresas incorporaram um espírito progressista e inovador, algumas ainda seguem o velho mote: “Se meu avô fazia assim e se deu bem, por que  haverei de mudar?”

Felizmente também essa minoria começa a sentir que a capacidade de competição internacional em um mundo globalizado tornou-se uma questão de sobrevivência. E assim se está buscando cooperação internacional em todas as áreas. É legítimo afirmar que essa busca teve início na Academia[1]. Aliás, desde muito cedo, até antes de ocorrer a imigração, cientistas alemães encontraram no Brasil uma área fértil para suas atividades, descobrindo, especialmente na Botânica, na Zoologia e na Geologia, um campo de investigação completamente novo.

Na Academia, cooperação é sempre iniciada entre pessoas; havendo êxito, em geral passa–se para a assinatura de convênios entre instituições; e, em alguns casos, acaba–se por firmar acordos governamentais. Entre o Brasil e a Alemanha não foi diferente: depois de décadas de colaboração entre acadêmicos dos dois países, e da assinatura de convênios envolvendo instituições de pesquisa, foi firmado, em 1963, um Acordo Governamental de Assistência Técnica e, em 1969, um de Cooperação em Ciência e Tecnologia. Ambos envolveram instituições de todo o Brasil; no que segue, nos limitaremos ao Rio Grande do Sul. Por pertinente, observe–se que, também em 1969, foi assinado um Acordo Governamental de Cultura.

2. Integrando o presente.

Hoje em dia, existem atividades de pesquisa em várias áreas científicas e tecnológicas, resultantes, em maior ou menor grau, da Assistência Técnica oferecida pela Alemanha. Especificamente, referimo–nos à Veterinária, à Farmácia, à Engenharia e à Ecologia, todas na UFRGS e à Química, na UFSM. Cada um dos projetos envolveu, à época, nas décadas de 1960/70, uma ajuda da Alemanha com valores entre US$ 3 e 5 milhões, com um intenso intercâmbio de cientistas e uma apreciável doação de equipamentos e de material de consumo. Deve ser destacado que, em cada caso, houve uma contrapartida do lado brasileiro. Dessa forma, foi possível iniciar ou continuar a pesquisa conjunta em bom nível e estabelecer as condições para o início de programas de pós–graduação. Os reflexos benéficos dessa Assistência Técnica são sentidos até hoje.

Por outro lado, no âmbito do Acordo de Cooperação em Ciência e Tecnologia, foram apoiados projetos, tanto novos como pré–existentes, mas com duas características que os diferenciam dos descritos acima: 1º) não envolviam assistência técnica, pois eram projetos conjuntos, em que os parceiros entravam de igual para igual; 2º) os valores financeiros eram muito menores. Projetos dessa natureza persistem até hoje, e novos são agregados ocasionalmente, sempre com a preocupação, especialmente por parte dos colegas alemães, em insistir de que se trata de uma real colaboração bilateral.

Ao lado dessas atividades no âmbito de acordos governamentais, existe um bom número de cooperações diretas entre agências de fomento à pesquisa dos dois países, que na realidade têm uma importância que entendo ser maior do que as do âmbito de acordos governamentais. Dentre as mais relevantes, estão envolvidas, pelo lado brasileiro, CNPq, CAPES e Fundações de Amparo à Pesquisa Estaduais e, pelo lado alemão, o Serviço Alemão de Intercâmbio Acadêmico – DAAD, a Sociedade Alemã de Pesquisa – DFG, a Sociedade Max Planck – MPG, e a Fundação Alexander von Humboldt – AvH. São apoiados bolsas de estudo (desde graduação até pesquisador sênior), projetos de pesquisa conjuntos, intercâmbio de pesquisadores, estágios de estudo e de pesquisa etc. E, em todas as atividades, é sempre pressuposto um relacionamento de igual para igual.

Por último, por envolver diretamente o RS, deve ser mencionada a cooperação com a Sociedade Fraunhofer – FhG, entidade que congrega na Alemanha mais de 50 institutos de pesquisa aplicada/tecnológica. Mediante um convênio entre FIERGS/SENAI, Estado do RS através da Secretaria da Ciência e Tecnologia (era o nome à época) e a FhG, foi criado o Centro de Excelência em Tecnologias Avançadas – CETA, entidade que realiza, em conjunto com instituições brasileiras e de institutos da FhG, pesquisa tecnológica de interesse direto de empresas, isto é, atividades relacionadas com inovação e, portanto, com  o desenvolvimento econômico do Estado. O interesse de instituições alemãs em colaborações dessa natureza faz todo sentido, pois não é demais lembrar que um dos resultados mais positivos e festejados da cooperação com instituições brasileiras foi o reflexo econômico: Hoje, São Paulo é a maior cidade industrial alemã fora da Alemanha, com todas as consequências benéficas que isso representa para a economia do País.

Uma observação sobre o Acordo Cultural: Ele praticamente não foi implementado. O intercâmbio cultural, praticamente de uma via só (da Alemanha para o Brasil), é realizado de forma bastante competente pelos Institutos Goethe, nos locais em que eles existem.
 
3. Projetando o futuro

Iniciativas e propostas recentes permitem prever um incremento substancial da colaboração em Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) entre o Brasil e a Alemanha nos próximos anos e décadas.

O estabelecimento do programa Ciência sem Fronteiras pelo Governo brasileiro implica um crescimento substancial do número de bolsistas em todos os níveis (desde graduação até cientistas sênior) que irão aperfeiçoar–se no exterior. Até 2014, estão previstas mais de 100.000 bolsas, das quais mais de 20.000 serão custeadas por empresas. Não se pode prever quantos destes bolsistas irão para a Alemanha, mas um acordo bilateral estabelece  um potencial em torno de 10 mil. É quase desnecessário assinalar que esses bolsistas certamente darão um importante impulso nas relações em CT&I entre o Brasil e a Alemanha.

Como houve uma regressão, nos últimos anos, na cooperação, novas propostas surgiram e estão em andamento ou se espera que sejam implementadas no futuro. Serão listados aqui apenas alguns exemplos ilustrativos.

Em andamento estão duas iniciativas na área de Engenharia, uma em plena execução, no setor de Tecnologia de Manufatura, apoiada por CAPES, CNPq e FINEP no Brasil e pela DFG na Alemanha; e outra em fase de planejamento, com reuniões para definir projetos, apoiada por CAPES no Brasil e pela AvH na Alemanha, no âmbito de um programa mais amplo de cooperação entre as duas agências, intitulado Fronteiras da Pesquisa.

Uma rede de estudos em Direito envolvendo um grupo de universidades brasileiras e alemãs também está em planejamento, financiado por CAPES e DAAD.

Uma interação científica, com projetos conjuntos, entre os Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs) com os Centros de Excelência (Exzelenzinitiativen) alemães está sendo proposta às agências FAPERGS no RS e DFG na Alemanha.

Finalmente, projetos mais ambiciosos estão sendo analisados: Programas de Pós–Graduação conjuntos entre instituições brasileiras e alemãs; Criação de instituto(s) binacional(is) em área básica (com a MPG) e/ou em área aplicada/tecnológica (com a FhG); Estabelecimento de universidade binacional no Brasil.

Como consequência das Comemorações do Triênio da Imigração Alemã e do Ano da Alemanha no Brasil, é lícito esperar que aumente de forma significativa o intercâmbio científico entre os dois países, especialmente no que concerne à conscientização para um aumento do número de acadêmicos participantes.


[1] Esta nota limita-se à área acadêmica (nível superior), não incluindo o importante e significativo intercâmbio na área técnica (especialmente agrícola) e no nível secundário. 

*Gerhard Jacob foi reitor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e é presidente do Instituto Cultural Brasileiro-Alemão, parceiro do Instituto Goethe de Porto Alegre, RS.

 

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