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Colunistas

01/09/2014

Sócrates, craque original, revolucionário e 100% brasileiro

A estatura elevada – aproximando-se do 1,90 metro – e o corpo franzino foram as primeiras características que muitos notaram naquele meia-atacante de 17 anos que chegava ao time principal do Botafogo de Ribeirão Preto. Com a bola nos pés, porém, e

A estatura elevada – aproximando-se do 1,90 metro – e o corpo franzino foram as primeiras características que muitos notaram naquele meia-atacante de 17 anos que chegava ao time principaldo Botafogo de Ribeirão Preto. Com a bola nos pés, porém, ele não demoraria para mostrar outras de suas qualidades. Na verdade, aquele molecão até desengonçado era mais veloz do que se poderia imaginar: tinha visão de jogo, faro de gol e ainda ousava servir seus companheiros com passes açucarados... de calcanhar.

E não que ele fizesse aquilo por se achar superior: o jovem Sócrates tinha mesmo encontrado uma forma de se proteger dos zagueiros mais desleais. “Quando comecei no Botafogo minha realidade física era muito distinta da dos adversários. Enfrentava gente bem preparada fisicamente, então minha sobrevivência dependia do desenvolvimento de uma técnica alternativa”, explicaria o jogador anos depois, no livro "Recados da Bola", de Jorge Vasconcellos.

“Comecei a jogar dando só um toque na bola. Recebia e passava, porque não podia ter contato físico. Não tinha estrutura muscular para isso: era muito alto e magro. O que pudesse usar eu usava para dar apenas um toque – bunda, joelho, cotovelo e, o que acabou por me caracterizar, o calcanhar. Era um processo de sobrevivência. Foi uma solução minha e passei a me aprimorar”, completaria.

O processo levou anos, e Sócrates se aprimorou tanto que quase transformou aquele toque em uma marca registrada. E a velocidade de raciocínio e, sobretudo, a inteligência acima da média ficariam cada vez mais evidentes com os rumos que sua vida tomaria dentro e fora dos campos. No início dos anos 1980 – já formado como médico e então ídolo de Corinthians e Seleção Brasileira –, ele se serviria dessas outras características para superar os limites dos gramados.

Foi em um período em que a ditadura militar ainda dava as cartas no país em que Sócrates liderou um dos movimentos mais revolucionários do futebol, a Democracia Corinthiana. E, ao subir em palanques em favor das "Diretas Já" – movimento popular que reivindicava o voto direto nas eleições presidenciais –, mostrou que já não era apenas um craque da bola, mas uma personalidade influente em todos os setores da sociedade.

“O Sócrates é o jogador mais original da história do futebol brasileiro”, garante Juca Kfouri, um dos mais importantes cronistas esportivos brasileiros, no filme Ser Campeão é Detalhe – A Democracia Corinthiana. “Não digo (que foi) o melhor, nem mesmo do Corinthians - o Rivelino foi melhor do que ele -, mas é o mais original do Corinthians e da Seleção.”

Revolucionário
Para se tornar este craque criativo, politizado e muito à frente de seu tempo, Sócrates começou cedo a se distinguir dos demais. Aos 17 anos, por exemplo, convenceu os dirigentes do Botafogo de que seria capaz de conciliar as obrigações do clube com o curso de medicina – o qual não abriria mão de completar. Tão diferente dos companheiros, ele provaria que o ritmo mais leve nos treinos não faria diferença no futuro – ou em toda sua carreira, diga-se de passagem – e que o esforço dos dirigentes em aceitar tais condições acabaria valendo a pena.

Anos depois, com o diploma em mãos, ele deixaria Ribeirão Preto como herói e se transferiria para o Corinthians, completando a rápida ascensão com a chegada a uma Seleção Brasileira que se preparava para a disputa da Copa do Mundo da FIFA Espanha 1982. Capitão do grupo comandado por Telê Santana, Sócrates faria parcerias memoráveis com Zico e Falcão, sempre à base de toques rápidos – muitos de calcanhar, claro – e intensa trocas de posições. Marcaria dois belos gols no Mundial – contra União Soviética e Itália –, mas choraria junto com milhões de compatriotas a inesperada queda diante da Azzurra de Paolo Rossi.

E, se a eliminação se tornaria uma de suas grandes frustrações (“Foram os trinta dias mais perdidos da minha vida”, diria depois), Sócrates ao menos deixaria para sempre sua marca na história do futebol mundial como o líder de uma geração que misturou magia e alegria e foi uma das melhores representantes do autêntico estilo brasileiro. “Um dos maiores times da história não ter conquistado a Copa é considerado uma tragédia e ajuda a mitificar a equipe", analisaria.

Filosofia de campanha
Foi com aquela equipe também que ele formou as bases que usaria mais tarde para quebrar paradigmas no futebol nacional – e, isso, graças à convivência com outros jogadores de forte personalidade e à liberdade que Telê Santana dava ao grupo. “Ele era conservador, mas foi o treinador mais democrático que já vi. Ele nunca impunha um time ou como ia jogar. Deixava que ele se autoformatasse”, contaria Sócrates à Revista ESPN.

No Corinthians, usou a mesma filosofia para liderar, ao lado de companheiros como Casagrande, Zenon e Wladimir, o processo inovador que permitiu a funcionários e jogadores participar de decisões sobre questões como horário de treinos, de voos e até a abolição da concentração, juntamente com a presidência do clube.

“Tínhamos um grupo de pessoas que pensava alguma coisa diferente daquilo que era o padrão. Só que nunca tínhamos tido a sensação de que pudéssemos criar a revolução”, conta. “Na época, o voto era igualitário. Roupeiro e massagista tinham voz igual ao do diretor; terceiro goleiro tinha o mesmo peso que eu, que era o único jogador de Seleção do clube. Foi a coisa mais bonita do mundo.”

Entre 1982 a 1984, a Democracia Corinthiana permitiria ao clube levantar o bicampeonato estadual, mas a verdadeira conquista viria com a conscientização política daquele grupo e a forma com que seus ídolos levariam as ideias a campos mais amplos. Sócrates, por exemplo, discursou inúmeras vezes em comícios pelas "Diretas Já" e chegou a prometer não aceitar uma transferência para a Fiorentina em caso de mudanças políticas - que não aconteceram, ratificando, assim, sua ida a Florença.

Paixão eterna
A passagem pela Itália, no entanto, seria curta. “Foi uma reação à política do país. Não tinha nenhum interesse afetivo naquilo. Fiquei um ano triste lá e acabei voltando. Meu mundo é aqui (Brasil)”, explicaria. No retorno, aos 31 anos, vestiu as camisas de Flamengo e Santos e disputou uma nova Copa do Mundo da FIFA sob o comando de Telê Santana – desta vez ficando marcado pelo pênalti perdido na derrota para a França nas quartas de final do México 1986.

Nada, porém, que mudasse o legado que já havia deixado. Original, revolucionário, inteligente, ele foi, sobretudo, um jogador que viveu intensamente sua carreira e que carregou com orgulho o nome do país que tanto lutou para melhorar. Afinal, Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira era, antes de grande craque, aquilo que seu sobrenome de família anunciava: um grande brasileiro.

 

Veja as imagens na notíca original no site oficial da Fifa >>>



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