Colunistas

28/06/2015

Sobre a morte de Hans G. Naumann - um educador diferente - por Edgar Welzel*, de Stuttgart, Alemanha

Hans Günther Naumann foi um educador diferente. Personalidade tão desconhecida quanto impressionante, foi um exemplo de trabalho, abnegação, perseverança e dignidade que influenciou gerações. Foi Prêmio Distinção Imigração Alemã RS 2011.

Hans G.Naumann não foi um educador no sentido etimológico do vocábulo. Talvez nem mesmo aqueles que conviviam com ele mais de perto se deram conta  de uma característica peculiar de sua personalidade tão desconhecida  quão impressionante da vida deste homem cuja atuação foi um exemplo de trabalho, abnegação, perseverança e dignidade que influenciou gerações.


O mestre e sua obra - Foto Divulgação

Seu exemplar empenho e seus indiscutíveis méritos deixaram vestígios. Os frutos das sementes lançadas na antiga ENE em São Leopoldo foram,  por sua iniciativa,  replantados em Ivoti onde germinaram também nas vizinhanças, disseminando-os aos mais distantes  rincões do Rio Grande do Sul e muito além de nossas fronteiras, extrapolando-os a quase todos os estados do Brasil. Seu trabalho foi e será admirado e respeitado e Hans G.Naumann sim, foi um educador; mas foi um educador simplesmente diferente.

A transferência da antiga ENE de São Leopoldo, com suas apertadas e obsoletas instalações, para as novas em Ivoti,  foi um marco decisivo e um passo acertado no caminho certo.

Trabalhou em silêncio, com esmerada tenacidade, sem mostras de jactância ou ostentação. Planejou, iniciou e criou uma obra que hoje se encontra entre os mais respeitados estabelecimentos educacionais do Brasil. O conglomerado educacional existente hoje em Ivoti, com ampla oferta de cursos, desenvolveu-se num núcleo educacional de nível superior  que atualmente, segundo análises de especialistas do Ministério da Educação em Brasília, encontra-se entre os mais sérios e prestigiosos estabelecimentos educacionais do país.

Graças ao trabalho e a dedicação de muitos outros que o seguiram após aposentar-se e que levaram adiante o projeto com o mesmo empenho, com o mesmo espírito, com o mesmo cuidado excepcional, tenacidade e abnegação e com as mesmas características de qualidade de ensino, o projeto, apesar de todos os contratempos e impecilhos   das mais variadas espécies, cresceu e transformou-se em educandário modelo que hoje desperta o interesse de profissionais de ensino de outros estados da federação e inclusive de  outros países da América Latina.

Hans G. Naumann, justiça seja feita, não foi o único que trabalhou neste projeto. Ele foi, isto sim, a “máquina propulsora” que nunca desanimou,  pois, além de vários outros talentos com os quais a Natureza o dotara, teve um talento especial, o de motivar-se a si mesmo e o de contagiar outros que o acompanharam nesta longa e árdua trajetória. Foi esta a característica peculiar de sua personalidade.

Continua vivo em minha memória o meu primeiro encontro com este homem que o destino fez que se cruzasse em meu caminho. Foi em fins de um fevereiro extremamente quente do longínquo ano de 1953. Jovem, ainda menino, ao chegar de ônibus do interior do Estado à antiga estação rodoviária no centro de São Leopoldo, dirigi-me a pé ao estabelecimento educacional, a antiga ENE, no qual meus pais decidiram matricular-me e que me daria abrigo para os próximos cinco anos.

Carregava comigo apenas uma mala, com visíveis farpas de desgaste que os anos lhe proporcionaram, com minhas parcas roupasnecessárias para o primeiro semestre do ano letivo que começaria no início de março.

Na carteira eu portava dezessete cruzeiros, a moeda da época, que não dava nem para meio almoço ou, se muito, para dois cachorro-quentes num boteco de esquina. Quando meu pai, na despedida, mos entregou, vi que sua carteira ficara vazia. Era tudo que tinha a dar-me, naquele momento, em moeda. “Vais receber outro capital lá no colégio”, disse-me com lágrimas nos olhos.

Nunca esqueci do que meu pai me dissera  naquela hora, um marco decisivo em minha vida, mas passaram anos para que eu  entendesse o seu real significado: o capital intelectual humanístico que recebi neste quinquênio compensou tudo.

Toquei a campainha da enorme porta de vidro embutida numa armação de ferro com elementos geométricos artisticamente forjados. Ouvi o ruído dos passos de alguém que se aproximava e, em seguida, o estalido do trinco da  porta e um homem enorme, na época se me parecia um gigante, cumprimentou-me com um forte aperto de mão. Era ele, o próprio Hans G. Naumann, o diretor do estabelecimento educacional, que me recebera pessoalmente.

Fez-me entrar e pediu-me que o acompanhasse. Levou-me a uma sala que achei que fosse a secretaria do colégio, mas constatei nos dias seguintes que, na realidade, tratava-se da sala dos professores. Chamou-me a atenção que, apesar do calor sufocante, Hans G. Naumann estava impecavelmente vestido com terno bege, camisa branca e gravata.

- “Chegaste cedo. És o primeiro!”, comentou em tom admirado, enquanto colocava alguns papeis sobre a mesa, os quais controlava de soslaio. “Ainda não há ninguém neste casarão. A cozinha e o refeitório continuam fechados. Só abrem daqui a dois dias quando a turma começa a chegar”.

Fiquei quieto. Não sabia o que responder, pois a preocupação de que não teria o que comer nos próximos dois dias mexeu comigo e ele, aparentemente, registrou a minha apreensão.

- “Não te preocupes”, disse ele. “Hoje vais jantar em minha casa. Moro aqui ao lado. Venho buscar-te às 19h. Espere-me nesta mesma sala.  Enquanto isso vou te mostrar o dormitório  e a tua cama”.

Foi assim que, na minha primeira noite naquele estabelecimento educacional, jantei em sua casa e, durante os cinco anos que lá estive, sempre interpretei aquele gesto como deferência especial. Foi neste primeiro encontro que conheci sua esposa, Dona Ruth, e os filhos Peter, o mais velho, na  época com quatro anos;  Gisela tentava seus primeiros passos e o bebê Christoph ainda dormia em seu bercinho.

Passadas as primeiras semanas do ano letivo, percebi que naquele estabelecimento reinava um espírito sério, com métodos de ensino sério e um currículo de estudos abrangente que incluía matérias humanísticas adicionais além das prescritas oficialmente pela Secretaria Estadual de Educação.

Teria muito a relatar sobre as  vivências e as experiências  feitas neste período. No entanto, na triste hora em que hoje, 28 de junho de 2015, nos despedimos de Hans G. Naumann, não há lugar para tais reminiscências. Vamos homenageá-lo de outra forma e, por isso, voltemos à sua obra e ao homem Hans G. Naumann.

Deixei São Leopoldo em fins de 1957 levando dentro de mim as sementes lá plantadas que germinaram e formaram a base para a minha futura carreira.  Apesar de seguir uma profissão totalmente diferente, nunca perdi o contato com o professor Hans G. Naumann. Tornamo-nos amigos e passamos a tutear-nos.

Mesmo da longínqua Europa foi-me possível acompanhar os seus planos, seus projetos, suas ideias que, às vezes, se me pareciam arrojadas, avançadas em seu tempo, e um dos projetos até se me parecia deslocado, algo que marchava contra o tempo. Refiro-me ao seu projeto da criação do Instituto de Formação de Professores de Língua Alemã, o IFPLA. Lembro-me que, em uma de suas passagens por Stuttgart, comentei com ele o assunto. Ponderei se seria acertado concretizar tal projeto tendo em vista a dominância mundial do inglês em todos os setores da vida profissional.

Hans G. Naumann estava convencido da ideia: “Já estamos em fase bastante avançada, não posso recuar mais, temos as instalações, a garantia de professores capacitados e dispomos dos meios financeiros  para assegurar o funcionamento do IFPLA a longo prazo”, disse-me Naumann na época.

Enganei-me. O IFPLA foi um projeto que deu certo.  Prova disso é que nunca na história do Brasil houve tanta gente, entre jovens e adultos, matriculados em cursos de língua alemã no Brasil. Nunca nas relações entre o Brasil e Alemanha houve tantos estudantes brasileiros  matriculados em universidades da Alemanha. A maioria desses estudantes já vem à Alemanha com bom domínio do alemão que estudaram no Brasil. O  IFPLA contribuiu para este desenvovvimento e Hans G. Naumann, como vemos hoje, não marchou contra o tempo.

Na década de 80 tive a oportunidade de acompanhá-lo no sul da Alemanha em visita a algumas instituições quando vinha como “pedinte” à procura de verba. Senti como eram difíceis as conversações que tivera que enfrentar durante estes anos todos. Mas Hans G. Naumann convencia o interlocutor e acabava recebendo a confirmação de ajuda. Sem estas verbas de algumas instituições da Alemanha, a obra em Ivoti e demais projetos correlatos não teriam sido possíveis.

Telefonávamos com frequência e eu sempre perguntava acerca de sua saúde e como se sentia. “Sinto-me como um homem de oitenta”, disse-me ao completar 80 anos. Repetia a mesma frase sempre que avançava um ano mais. Ao completar noventa: “Sinto-me como uma homem de 90 mas no mais vou bem”.

Curiosa foi a conversa ao completar 91 anos. “Sinto-me como um homem de 91, no mais vou bem. Escuta, você pode ligar mais tarde? Estou com dois casais aqui. Você sabe o que eu estou fazendo com estes quatro?”

“Não”, respondi, “mas tenho curiosidade em sabê-lo.

“Estou ensinando a eles o que  é uma sinfonia, a sua forma, tonalidade,  data da composição, andamentos, movimentos, instrumentos, tudo isso. Disseco-a em partes e depois junto-as novamente.”

“Já sei”, comentei, “sei também qual é a sinfonia que você tomou como exemplo”.

“Qual é”, quis saber.

“A sinfonia n° 3 em Mi Bemol Maior, a Heroica  de Beethoven e já sei que, quando findar com a Heroica, você passará para a Sinfonia n° 40 em Sol Menor de Mozart”, retruquei eu.

“Como é que você sabe isso?”, admirou-se o amigo Hans G. Naumann.

“Você me ensinou isso há 57 anos!”

“Puxa, tenho a impressão que minha memória está ficando fraca”, disse Naumann e pediu para ligar mais tarde.

Hans G.Naumann completou 92 anos em 25 de maio passado. Consegui cumprimentá-lo só alguns dias mais tarde. “Sinto-me como um homem de 92, mas no mais vou bem”, repetiu quando perguntei sobre o seu estado. Foi a nossa última conversa. Recebi hoje a notícia de seu falecimento.

Hans G. Naumann descreveu a sua trajetória em “Se você não assumir...” É uma obra rica em detalhes sobre o caminho que percorreu. É uma obra impregnada também com frases, ideias e pensamentos que fazem o leitor refletir. À página 381 lê-se: “...Creio que isso muitas vezes acontece em nossa vida. Somos levados a assumir tarefas, não por escolha nossa. E isto significa também, sem mérito próprio, pela imposição de circunstância”. Hans G. Naumann assumiu! O Rio Grande do Sul e o Brasil estariam bem melhores se teríamos mais homens como ele o foi.

No momento em que redijo este comentário vêm-me à memória lembranças de mais de seis décadas de contato com uma extraordinária personalidade cujo trabalho, cuja liderança, cujo inestimável esforço realizado no campo da educação, influenciou e continuará a influenciar o ensino no Rio Grande do Sul e do Brasil. Hans G. Naumann foi professor, mas foi um professor diferente. Perdemos um fiel amigo que ligou a obra de sua vida estreitamente a um projeto educacional perene, fonte de saber, cultura e educação para gerações vindouras. Hans G. Naumann trabalhou para um Rio Grande do Sul e um Brasil melhor e por isso lhe devemos gratidão e respeito também após este dia triste.

*Edgar Welzel é colunista, analista político e ensaísta. Escreve regularmente para o portal BrasilAlemanha e o Jornal Opção,
de Goiânia, sobre temas europeus e internacionais.
Reside em Stuttgart, Alemanha.

Mais sobre a vida e a obra de Hans. G. Naumann >>>



Comentários

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Nilo Bidone Kolling 04/07/2015, às 17:36

Grato Edgar! Bons que enxergas adiante no nosso saudoso Salomão aqueles educadores exemplares e com raridade na Pós-Modernidade! Valeu termos sido seus alunos... abraços do Oeste de Santa Catarina - barrancas do Rio Uruguay

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Nilo Bidone Kolling 04/07/2015, às 17:36

Grato Edgar! Bons que enxergas adiante no nosso saudoso Salomão aqueles educadores exemplares e com raridade na Pós-Modernidade! Valeu termos sido seus alunos... abraços do Oeste de Santa Catarina - barrancas do Rio Uruguay

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Gilberto R. Winter 04/07/2015, às 11:30

Obrigado pelo texto impecável sobre o nosso querido amigo. Winter IPT 1968-69

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Ruben Arend 03/07/2015, às 16:59

Sr. Edgar. Sou egresso da mesma instituição de ensino - 1966/71, já em Ivoti. Do empenho do 'seu' Naumann, dona Ruth e do quadro de docentes - da minha época - resulta a minha formação cultural e ética. Foi-se como ser humano, ficarão as suas referências. Abraços.


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