Colunistas

07/11/2016

Qual foi o erro de Angela Merkel? - por Edgar Waelzel*, de Stuttgart, Alemanha

Os acontecimentos de 4 de setembro de 2015 mudaram o clima político na Alemanha e na Europa. Ângela Merkel foi eleita chanceler da Alemanha em 2005. Em 2007 o­cupou durante seis meses rotativos a presidência do Conselho Europeu.


Chanceler alemã Ângela Merkel: a culpa não é dela

Foi, na época, ao lado do então presidente da Comis­são Europeia, José Manuel Barroso, a representante mais alta na hierarquia política da União Europeia.

Reeleita duas vezes, em 2009 e 2013, encontra-se em seu terceiro mandato que termina em outubro de 2017. Merkel ainda não se manifestou se concorrerá a um quarto mandato. A per­gunta paira no ar e preocupa os alemães enquanto ela própria anda às voltas com outra questão, talvez de­cisória para uma quarta candidatura.

Desde que assumiu o governo em 2005 o prestígio de Merkel, comparado a outros chefes de governo europeus, foi incontestável. Seu grau de aceitação a nível nacional oscilava entre 65% e 75%; a nível internacional talvez seja a personagem política mais admirada e respeitada da atualidade. Coroada com tantos louros, muitos até já a viam em patamares mais altos como, por exemplo, na cúpula da União Europeia, das Nações Unidas e até candidata potencial ao Nobel da Paz. Merkel nunca falou nem mesmo insinuou que tinha ou tem em mira um desses objetivos. Além disso, os postos já estão ocupados e o Nobel para 2016 já concedido.

Enquanto seu prestígio no quadro internacional continua inalterado, internamente Ângela Merkel está sendo confrontada com ventos contrários. Seu grau de aceitação decaíu ao nível de 46% que, comparado com outros chefes de governo, ainda é confortável; no caso de Ângela Merkel, acostumada a índices mais altos, tal decréscimo preocupa e nos dá motivo para uma análise.

A Alemanha encontra-se em fase pré-eleitoral e a eleição parlamentar em fins de 2017 decidirá sobre sua sucessão. A perda de prestígio interno pouco tem a ver com o habitual alarde pré-eleitoral mas muito com os acontecimentos dos últimos 12 meses. Nesta altura põe-se a pergunta: afinal, o que Ângela Merkel fez de errado?

A noite de 4 de setembro de 2015, uma sexta-feira, será um marco na história europeia. Os acontecimentos daquela noite mudaram o clima político na Alemanha e na Europa com imprevisíveis e múltiplas consequências para o futuro. O semanário “Die Zeit” alardeou: “A noite na qual a Alemanha perdeu o controle”.

Nos Bálcãs milhares de refugiados aglomeravam-se nas fronteiras externas da Europa. Cerca de 1 milhão de pessoas, jovens, idosos, crianças e até cegos e paraplégicos vegetavam ao relento sob sol e chuva, sedentos, famintos e exaustos. Os acampamentos encontravam-se superlotados e o suprimento com água e alimentos tornou-se dramático para as autoridades, organizações caritativas e centenas de voluntários. A legião dos necessitados era demais numerosa para provê-la adequadamente com víveres, medicamentos, produtos higiênicos e outras necessidades. Ninguém os chamara. Cerca de 4 mil refugiados já acampavam, havia mais de duas semanas, em condições precárias no subsolo da estação central de Budapeste.

Muitos levaram semanas, outros meses e alguns até levaram dois anos para chegar de seus países de origem, Síria, Líbia, Etiópia, Afeganistão e diversos países da África, principalmente da zona sul-saariana, até aos Bálcãs. O ambiente tornou-se tenso e em alguns pontos explosivo. Policiais fronteiriços nervosos, preocupados em cumprir sua tarefa para a qual foram destacados, a de garantir a segurança nas divisas, jamais viram-se confrontados com tal situação.

A massa de refugiados observava os policiais. Alguns dos refugiados que se destacaram como líderes percebem o nervosismo do batalhão policial. Como reagirão? Subitamente um grupo de refugiados começa a caminhar, em passos firmes, em direção aos policiais. Dezenas, centenas, milhares aderem ao grupo. O choque parece inevitável.

Diante dos “invasores” as autoridades teriam o direito de fazer uso da força. Por uma razão instintiva, não o fizeram. Em vez de sacar suas armas, abrem caminho e deixam a coluna passar. A massa segue a pé, via autopista. À frente do grupo marcha um indivíduo portando uma bandeira da União Euro­peia; outro ostenta uma grande foto de Ângela Merkel e um terceiro empurra uma cadeira de rodas com um homem que perdera uma perna e a outra envolta em gesso.

As redes sociais, com rapidez, difundem a foto com o título #marchofhope, marcha da esperança. Os refugiados não mais atendem ordens das autoridades húngaras; decidem sozinhos e marcham em direção à fronteira austríaca, cerca de 250 km de distância.

Às 19h30, Victor Orbán, chefe do governo da Hungria, envia uma mensagem ao chanceler Werner Faymann, na época, chefe do governo austríaco, com a pergunta: “Em que base legal deverá reagir a Hungria”? Faymann e seus assessores interpretam a pergunta: a Hungria deixará a multidão marchar a Viena. Ao mesmo tempo concluem que a marcha só poderá ser interrompida à força e decidem que tudo deverá ser feito para evitar tal medida. Faymann liga para Ângela Merkel, que se encontrava dis­­cursando em comício em Co­lô­nia. Um de seus assessores atende e, terminado o discurso, mostra-lhe as imagens do drama que está se sucedendo nas autopistas húngaras.

Três dias antes o mundo tomara conhecimento da pungente fotografia do menino sírio, o pequeno Aylan, de camiseta vermelha e calção azul, devolvido afogado pelas ondas do Mediter­râneo a uma das praias da Turquia.

No caminho ao aeroporto de Colônia, Werner Faymann consegue falar com Ângela Merkel. Comenta os acontecimentos na Hungria, alerta sobre a situação dramática, adverte sobre iminente aplicação de força por parte das autoridades com possíveis mortos. “Encontramo-nos numa situação de emergência e a Hungria parece escalar a situação” observou Faymann.

Também Merkel convenceu-se de que a marcha dos refugiados só poderia ser interrompida à força, o que terminaria em catástrofe humana. Para evitá-la a Áustria e a Alemanha teriam que abrir suas fronteiras mesmo cientes da problemática em permitir a entrada para todos.

Ao chegar a Berlim, Ângela Merkel consultou seus ministros e chefes dos partidos coligados. Houve consenso que a Alemanha deveria abrir as fronteiras desde que se tratasse de uma ação única. A crítica corrente, de que a decisão teria sido tomada pessoalmente por Ângela Merkel, não tem fundamento.

Enquanto isso a coluna de refugiados já seguira a pé cerca de 32 km. Mulheres e crianças fraquejaram. Anoitecera e um chuvisco frio dificultou a continuação da jornada. Os líderes resolveram que os participantes acampassem ao lado da autopista.

Paralelamente Victor Orbán e sua equipe, em um ato de extrema rapidez, organizaram cem ônibus para levar os caminhantes à divisa austríaca. A Áustria os encaminhou à Alemanha. Falava-se de cerca de 8 mil pessoas. Em verdade, naquele fim de semana chegaram a Munique, na Alemanha, cerca de 40 mil pessoas.

Naquela fatídica noite de 4 de setembro de 2015, com os dramáticos acontecimentos nos Bálcãs Ângela Merkel, Werner Faymann e Victor Orbán passaram a noite em claro. Os demais 25 chefes de governo da Europa dormiam e nenhum dos três acordados teve oportunidade para consultar os demais colegas. Foi uma das noites mais dramáticas na Europa nestas últimas décadas. Os detalhes, com trocas de farpas, do que se passou a nível de governo entre Buda­peste, Viena e Berlim só aos poucos estão chegando à tona.

A Europa dormia, assim como já dormira há mais de 15 anos quando o problema migratório já se manifestara primeiro na Espanha, depois na Grécia e na Itália. Os insistentes apelos de ajuda dos países do sul europeu à União Europeia para atender os milhares de náufragos nunca foram atendidos com a devida seriedade; milhares de refugiados sucumbiram no Me­diterrâneo. O número exato é, e permanecerá para sempre, uma grandeza incógnita.

Ângela Merkel, junto com Werner Faymann, ao tomarem a decisão em abrir a fronteira, contavam com o apoio dos demais chefes de governo da União Europeia que, diante da situação de emergência, não lhes foi possível consultar. No entanto, Ângela Merkel está sendo culpada por uma decisão que nem foi sua. Apoio ou solidariedade por parte de outros países da UE apenas raras excepções.

Ângela Merkel nunca expressou um convite para que refugiados viessem à Alemanha. Certo é que por sua atuação e intervenção foi prestado auxílio em uma situação altamente dramática e de extrema urgência; evitou-se derramamento de sangue e que pessoas perecessem de fome e miséria diante das fronteiras europeias. “É o que não deverá acontecer na Europa”, disse a chanceler.

Nos dias e semanas subsequentes chegaram a Alemanha em 2015 cerca de 1 milhão de pessoas. Passado um ano, a cifra ficou reduzida a cerca de 850 mil. Alguns seguiram para outros países; outros foram deportados ou resolveram regressar livremente para seus países de origem. “Os que vêm apenas por motivos econômicos não podem ficar”, esclarece Merkel.

Dos 850 mil que permanecem, nenhum dorme ao relento. Todos têm teto e cama, comida, atendimento médico, cursos de alemão e uma mesada para necessidades urgentes. Qual é o país em condições de resolver um problema de tal amplitude? Diante destes fatos, afinal, qual foi o erro de Ângela Merkel? Será que o “Die Zeit” tem razão em afirmar que o 4 de setembro de 2015 foi “a noite na qual a Alemanha perdeu ocontrole”?

Ângela Merkel não é conhecida por declarações emocionais. Diante das críticas fez uma excessão com uma frase impregnada de amargura e desapontamento que lhe saiu de improviso, uma alfinetada mordaz aos que a criticavam: “Devo dizer francamente que se teremos que desculpar-nos pelo fato de termos mostrado complacência em uma situação de extrema emergência, então este não é meu país”. A observação espontânea de Merkel causou enorme impacto. Foi discutida durante semanas. Calhou!

 



Comentários

deslogado
annlike 13/07/2017, às 05:37

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