Colunistas

10/10/2015

Para onde marchará a Turquia? Por Edgar Welzel, de Stuttgart, Alemanha

Os últimos acontecimentos na Turquia levam-nos a abordar, mais uma vez, as ocorrências naquele país em aditamento aos comentários já divulgados nesta coluna acerca da situação política no país que separa a Europa da Ásia.

(Obs. BrasilAlemanha: Os artigos de Edgar Welzel são publicados também no Jornal Opção, de Goiânia, GO. Confira: A Turquia entre Oriente e Ocidente”, Jornal Opção edição n° 2064 e “O dilema da Turquia”, edição n° 2065, em janeiro passado).

O que na época vislumbrávamos como eventual possibilidade, tende a recrudescer e transformar-se em problema maior com resultados não previsíveis em um país que, segundo sua constituição, é uma república parlamentar democrática, excessão entre os países do mundo islâmico.

Para a Europa e para a OTAN as recentes manobras políticas de Recep Tayyip Erdogan, presidente da Turquia, vêm em hora imprópria. Há cinco anos a União Europeia anda às voltas em resolver a difícil situação na Grécia. De momento, alarmada e desorientada com o súbito aumento do movimento migratório que ameaça a ruptura da união e põe em jogo a segurança política e social do Continente com consequências de dimensões históricas, a Europa acompanha com alarmantepreocupação os atuais desenvolvimentos naquele país islâmico do flanco sul europeu. Uma análise dos fatos revela que uma Turquia parlamentar democrática, de momento, existe apenas no papel. A realidade é outra.

Erdogan Iniciou suas atividades políticas na juventude ao filiar-se a “Akincilar Dernegi” (União da Vanguarda), uma organização clandestina. Em 1970 filou-se ao MNP, um novo partido político logo proibido pelos militares que, desde a criação do atual Estado turco em 1923 por Mustafa Kemal Atatürk, viam-se como garantia inconteste da ordem pública, política e social do país, baseado na filosofia militar laicista introduzida por Atatürk cujo legado institucionalizou-se e durou quase 80 anos, até 2010.

Erdogan passou por vários partidos até ser eleito prefeito de Istambul em 1994, cargo que ocupou até 1998. Após terminar o mandato, há longo tempo já sob a mira dos militares, foi condenado à prisão por 10 meses com seus direitos políticos cassados até o fim de sua vida. O motivo foi um discurso pronunciado na cidade de Siirt, no sudoeste da Anatólia, no qual Erdogan citou uma passagem, imprópria para a ocasião, de uma poesia religiosa atribuída ao poeta Ziya Gökalp (1875-1924).

Em 2001 fundou seu próprio partido, o “Adalet ve Kalkinma Partisi “, AKP, Partido Justiça e Desenvolvimento que nas eleições de 2002 obteve 34% dos votos. Erdogan não pôde ser eleito chefe de governo por estar com os direitos politicos cassados e pelo fato de não ser membro do parlamento, condição legal para candidatar-se ao cargo.

Recep Tayyip Erdogan resolveu o impasse de forma pragmática. Seu vice-presidente de partido, Abdullah Gül, já membro do parlamento, tornou-se chefe de governo. A cassação política de Erdogan foi anulada com uma reforma da Constituição e, com a anulação das eleições na região de Siirt, Erdogan conseguiu uma cadeira no parlamento posterior às eleições. Em março de 2003, tornou-se chefe de governo e Abdullah Gül foi nomeado ministro das relações exteriores. Em 2007 o AKP obteve 47% dos votos e Erdogan foi reeleito para um segundo período que terminou em agosto de 2014.

Durante o seu primeiro governo Erdogan conseguiu introduzir algumas reformas no campo da redemocratização. Foi abolida a pena de morte, ampliou-se a liberdade de expressão, reforçaram-se as medidas contra a tortura, melhorou-se substancialmente a relação do governo turco com a população minoritária curda além de outras medidas que contribuíram para o apaziguamento interno.

Erdogan chegou até a procurar a aproximação com a Armênia sugerindo inclusive a criação de uma comissão de historiadores (que não se concretizou) a fim de esclarecer o genocídio contra os armênios durante a 1ª Guerra Mundial que o governo turco nega já há cem anos; limitou drasticamente a influência dos militares na política que, desde Atatürk, atuavam como um estado paralelo e viam-se como o “verdadeiro estado”, medida que nenhum governo anterior conseguira efetuar.

A relação de Erdogan com a Europa nem sempre foi irrestrita mas foi em seu governo que tiveram início as gestões oficiais para a filiação da Turquia à União Europeia (UE) que esfriaram à partir de 2010 em virtude de a Turquia negar-se a abrir seus portos para navios cipriotas e outros pontos de impasse não compatíveis com as diretrizes da UE.

Após Atatürk nenhum governo da Turquia conseguiu tantas modificações, realizações e progressos como os alcançados nos dois períodos de governo de Recep Tayyip Erdogan. Seu prestígio cresceu e com isso cresceu seu apetite por poder. A primavera árabe, que inicialmente suscitara esperanças, fracassou e Erdogan passou a se ver como homem forte perante seus países vizinhos, região periclitante sujeita a constantes explosões.

Durante o seu segundo mandato como chefe de governo Erdogan tentou mudar a constituição com o objetivo de lhe assegurar um terceiro mandato. Não o conseguiu em virtude de não reunir no Parlamento os 75% necessários para uma reforma constitucional. Em consequência Erdogan candidatou-se à presidência do país e foi eleito, por voto direto, com grande maioria.

A partir desta época, Erdogan passou por uma metamorfose política. Desviando-se de seus princípios como chefe de governo com medidas positivas de mais democracia dignas de registro, mudou de atitude e transformou-se num político que se vê como sultão de um imaginário novo Império Otomano com insaciável apetite por poder e disposto a sacrificar o seu próprio país a fim de alcançar seus objetivos.

O motivo desta metamorfose foram as eleições parlamentares de junho passado nas quais o seu partido conservador islâmico, o AKP, acabou perdendo a maioria em virtude de um novo partido, o HDP (Haklarm Demokratik Partisi, em português, Partido Democrático dos Povos), fundado em 2012, ter entrado no parlamento com 13,1% dos votos.

O fundador e presidente do HDP, o jurista Selahaftin Demirtas da pequena etnia dos “zaza”, com apenas de 4% da população, demonstrou ser um político extremamente conciliador. Demirtas, criticado por representar o PKK, o partido curdo proibido na Turquia, refuta qualquer elo com aquele partido mas durane a sua campanha eleitoral defendeu a tese de que a luta curda por autonomia só poderá ser resolvida na base do diálogo.

Segundo a constituição da Turquia, a presidência do país é uma função de absoluta neutralidade. Erdogan, no entanto, ignora a prescrição constitucional e, no cargo de presidente atua como se continuasse sendo chefe de governo. Com sua ingerência na política do dia a dia Erdogan deixa o seu verdadeiro chefe de governo, Ahment Davutoglu, eleito em 2014, parecer uma figura supérflua.

A impressionante participação do HDP no governo terminou com os planos de mais poder do presidente Erdogan. Suas gestões no sentido de formar uma coalizão maioritária fracassaram e Erdogan conclamou o povo turco para novas eleições em novembro próximo. A campanha eleitoral está em pleno andamento e o AKP de Erdogan faz de tudo para denegrir a imagem do HDP, especialmente a do chefe do partido Selaftin Demirtas, com o objetivo de diminuir as chances eleitorais do partido e colocá-lo num patamar abaixo dos 10%, impedindo-o de participar do parlamento.

Paralelamente a estes acontecimentos voltaram a piorar drasticamente as relações do governo turco com a minoria curda formada por 18% da população correspodente a cerca de 15 milhões habitantes. Há alguns meses a Força Aérea da Turquia, país filiado à OTAN, vem efetuando ataques às milícias curdas na região de Mossul no Iraque que vinham enfrentando o avanço das hordas do Estado Islâmico (IS).

A medida turca causou irritação nos meios em Bruxelas, em Washington e na OTAN que têm apoiado as milícias curdas com armas e adestramento militar. A Turquia como membro da OTAN, neste caso atuou contra a organização à qual pertence. O governo turco argumenta que a medida se destina a aniquilar núcleos do PKK que do Iraque agitam internamente na Turquia.

A medida da Força Áerea teve sérias repercussões internas. Aumentou a espiral da violência. Hordas de nacionalistas turcos incendeiam lojas curdas e se metem à caça de representantes desta etnia. Por outro lado radicais do partido proibido PKK atacam postos policiais e quarteis. A sede do partido HDP foi destruída por incêndio. A liberdade de imprensa foi drasticamente limitada. Jornais que criticam o governo têm suas dependências vasculhadas e, não raro, suas redações fechadas.

Foi exatamente isto que aconteceu ao jornal BUGUN que, em 1° de setembro passado, revelou em manchete documentos que provam o fornecimento de armas pelo governo turco para grupos terroristas do IS. A notícia em verdade não foi novidade. A mídia na Europa já noticiara o assunto anteriormente. As consequências para o BUGUN, no entanto, foram desastrosas.

A Turquia está se confrontando com uma série crise interna e se encontra numa situação caótica que beira à guerra civil para a qual, segundo analistas europeus, o próprio presidente Recep Tayyip Erdogan contribuíu. A grande pergunta que paira em relação às próximas eleições em novembro: como reagirá Erdogan caso o HDP conseguir superar a margem de 10% ou repetir os resultados de junho passado com 13% ou talvez acima desse porcentual? Para onde marchará a Turquia? Maus ventos soprarão do Bósforo em direção à Europa que, de momento, já tem demasiados problemas para resolver.

 

 

 

 



Comentários

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zé do rock 11/10/2015, às 09:13

artigo interessante, edgar!


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