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04/08/2019

Opinião | O grande aliado dos “nucleolóides” - por Heitor Scalambrini Costa*

Nunca o dito de José Saramago (Nobel de Literura 1998) foi tão sintonizado com o momento atual: “O tempo das verdades plurais acabou. Agora vivemos no tempo da mentira universal. Nunca se mentiu tanto. Vivemos na mentira, todos os dias”.

Sem dúvida estamos vivenciando um momento trágico da história de nosso país, onde a irresponsabilidade dos veículos de comunicação tradicional, para se dizer o mínimo, pratica a antítese do jornalismo, e de suas boas práticas, se aliando ao atual governo de extrema direita. Assim tem-se mentido, manipulado, e confundido o povo brasileiro.

Nunca o dito de José Saramago (Premio Nobel de literatura de 1998) foi tão sintonizado com o momento atual: O tempo das verdades plurais acabou. Agora vivemos no tempo da mentira universal. Nunca se mentiu tanto. Vivemos na mentira, todos os dias”.

Se espera do jornalismo, que a factualidade do que é noticiado seja checado, que se faça o cruzamento de informações, que o contraditório seja levado em conta no debate democrático. Mas não é o que se verifica. Os releases do governo, das grandes corporações são automaticamente noticiados como verdades absolutas, sem averiguação. Uma única fonte, induz a formação de uma opinião pública viciada pelos interesses desta casta que domina nosso país desde seu descobrimento, e que tem no atual governo seu representante.

Segundo a pesquisa Monitoramento da Propriedade da Mídia - Media Ownership Monitorou MOM, em pleno século XXI, cinco famílias controlam 26 dos 50 veículos de mídia com maior audiência no Brasil, comprometendo assim a pluralidade da mídia. Sendo que os proprietários das corporações dos meios de comunicação (nem sempre conhecidos a composição societária), combinam interesses econômicos e políticos com o controle rigoroso da opinião pública. O que caracteriza, segundo o estudo, um “coronelismo eletrônico”.

No caso específico da decisão do atual governo de construir usinas nucleares o papel dos meios de comunicação, se confundem com os interesses dos beneficiários dos “negócios nucleares”, exercendo um papel relevante de direcionamento e falseamento deste debate, que é da maior importância para a sociedade brasileira.

Com a posse do atual presidente, e a militarização de seus ministérios, foi indicado como ministro de Minas e Energia, o almirante da marinha Bento Júnior, que esteve a frente do Programa de Construção de Submarinos (parceria firmada em 2008 com a França), inclusive com a construção de dois submarinos a propulsão nuclear. Como defensor da energia nuclear, logo se posicionou favorável a construção de mais usinas nucleares para produção de energia elétrica.

Hoje, sem sombra de dúvidas, o maior aliado do estado de coisas que temos vivido, a partir de 1 de janeiro de 2019, é a mídia tradicional, (também conhecida como mídia corporativa). Sem aplicar os devidos questionamentos, ou sair da condição de quem aceita “passivamente” as informações, tem negado espaço aos que discordam e criticam a atual política energética brasileira, em particular, a decisão de construir mais  usinas nucleares. Releases  e entrevistas dos dirigentes do setor nuclear são repercutidas como verdades absolutas. É bom lembrar, que quando se fala em construir novas usinas, significa ativar todo o ciclo nuclear, a partir da mineração. Inclusive a possibilidade, não remota, de construir e desenvolver artefatos bélicos.

As “vozes” dos defensores da tecnologia nuclear ganham assim destaque especial na mídia, cujo objetivo é conduzir o “debate” para o campo técnico, científico. Neste campo  polêmico são encontrados “especialistas” a favor e contra. Dependendo de quem é chamado a dar sua opinião sobre o tema. Todavia, decisões na área das políticas energéticas, assim com em outras áreas, merecem obrigatoriamente discussões mais amplas com o conjunto da sociedade. A abrangência das decisões tomadas repercutem na área social, ambiental, econômica, enfim na vida das pessoas, e cabe a elas decidirem, desde que informadas.

 Assim, tomar decisões desta ordem não deve ficar restritas a “especialistas”, aos técnicos, mas sim discutidas e aprofundadas  junto, e pela sociedade. Com ampla informação sobre os prós e contras. Que no caso da energia nuclear, na minha compreensão, não existe prós.

A razão é simples para este posicionamento: o Brasil não precisa de usinas nucleares, assim como o mundo. Aliás a luta é por uma nova civilização, sem usinas, sem armas nucleares, com liberdade plena de imprensa, e pelo jornalismo independente.

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O autor é professor aposentado da Universidade Federal de Pernambuco. Físico, graduado na Universidade Estadual de Campinas-UNICAMP, com mestrado em Ciências e Tecnologia Nuclear na UFPE, e doutorado na Universidade de Marselha/Comissariado de Energia Atômica-França. Integrante da Articulação Antinuclear Brasileira.

 



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