Colunistas

18/03/2017

O sofrimento próprio e o alheio - por Ivar Hartmann*

Dia destes, logo a primeira hora da manhã, encontrei um amigo prostrado. Quieto, calado, sério. Ele que é risonho e falador. Outra pessoa presente também notou. Perguntamos então se ele estava com algum problema. Daquelas perguntas que se faz quando se vê um amigo com comportamento diferente do normal. A resposta, mais objetiva impossível: “ontem á noite uma pessoa começou a se queixar da vida, resolvi ouvi-la para auxiliar. Ao final não consegui nada e recebi tal carga de pensamentos negativos que dormi mal!”

Casualmente, esta semana circulou um vídeo pelo Whats com sugestões sobre nosso dia a dia. Um deles dizia: Afaste-se de quem carrega uma nuvem negra ao redor de si. Então temos a prova e a sugestão. Mas, nada na vida dá para generalizar. Tantas pessoas que nos são caras que necessitam às vezes nosso ombro amigo, nossa palavra tranquilizadora, ou apenas a simples companhia. Que precisam às vezes falar, desabafar, chorar. Os próprios sentimentos cristãos incentivam a praticar a caridade, extensiva a ajudar o próximo não só com o conforto material, mas com apoio moral. E certamente nenhum leitor teria no egoísmo um componente importante de seu caráter. Até porque, quem hoje é doador, amanhã poderá ser pedinte.

Mas deve haver alguma regra para não sermos egoístas e ao mesmo tempo nos acautelarmos e proteger nossa saúde, obrigação de cada um. Seja ela saúde física ou mental. E o tal material do Whats me parece uma regra muito boa. Existem pessoas que tem um problema momentâneo e necessitam nosso auxílio. Assim como existem pessoas que estão permanentemente envolvidas por uma nuvem negra.

Passam a vida inteira sofrendo porque nada é como queriam, nada está certo, são incompreendidas, perseguidas, ofendidas, logradas, abandonadas. Os filhos? Não respeitam! Os vizinhos? São trogloditas! Os patrões? Não valorizam! Os colegas? Desprezam! Os parentes? Melhor à distância! Os médicos? Não acertam! Os psicólogos? Só levaram o dinheiro! E por aí afora. Andam ou não em uma nuvem negra? E alguém acredita que um paisano possa ajudar nesta batalha? Então, certamente, a piedade cristã que primeiro exige que cuidemos de nós, deve valer. Aquela velha máxima que vale para tudo: alguém se atirar em um abismo, não significa que eu deva segui-la. As doenças que nossa mente pode criar, só um especialista poderá tentar curar.

ivar4hartmann@gmail.com 


*Ivar Hartmann é promotor público aposentado, colunista do diário Jornal NH, Grupo Sinos, Novo Hamburgo, RS, e colaborador do portal BrasilAlemanha e da mala direta BrasilAlemanha Neues.



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