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03/07/2014

"Nós e Eles" - opinião Carlos Gerbase

A rapidez com que um ser humano racional e civilizado é absorvido por um esquema maniqueísta está programada em nosso genoma

A Alemanha continua refletindo sobre o conjunto de fenômenos sociais e econômicos que permitiram o surgimento do nazismo e do Holocausto. Centenas de livros foram escritos examinando dados culturais criados pelo próprio homem em sua trajetória histórica recente. Nos últimos anos, contudo, novas explicações para a barbárie têm aparecido e, desta vez, em outro campo: o da natureza humana, em suas bases psicobiológicas.

Os filmes A Experiência (2001), de Oliver Hirschbiegel, e A Onda (2008), de Dennis Gansel, ambos realizados na Alemanha, são bons exemplos dessa perspectiva. Basicamente, são histórias de seres humanos “normais” que são artificialmente divididos em dois grupos. Em A Experiência, são os guardas e os prisioneiros. Em A Onda, os estudantes uniformizados (jeans e camiseta branca) e os não uniformizados.

Em pouco tempo, pessoas que conviviam sem qualquer problema (os estudantes de A Onda), ou que não tinham qualquer animosidade pregressa (os voluntários de A Experiência), estão afogadas em ódio extremo e são capazes de cometer atos violentíssimos contra o grupo rival. Nós contra Eles. A rapidez com que um ser humano racional e civilizado é absorvido por esse esquema maniqueísta está programada em nosso genoma. Hitler e Goebbels sabiam o que estavam fazendo ao criar a oposição Nós (arianos) e Eles (judeus). O mesmo esquema foi desdobrado para atacar negros, homossexuais, ciganos e doentes mentais. Mas é sempre Nós (nosso grupo) e Eles (o outro grupo).

Eu poderia dar outros exemplos, mas acho que a ideia básica está clara e explica a falência do controle das torcidas de clubes de futebol através da crescente segregação, que começou com a separação física nas arquibancadas, evoluiu para o isolamento total dos torcedores, que não se encontram nem no caminho para os estádios, e atinge o clímax com as partidas de torcida única.

Está tudo errado. Estamos reforçando o esquema Nós e Eles. Estamos alimentando o ódio. Estamos reforçando o sentimento que leva um ser humano racional (do grupo Nós) a arrancar uma privada e jogá-la na cabeça de outro ser humano racional (do grupo Eles). Estamos incentivando a criação de assassinos. Uma política de segurança pública eficiente deve fazer o contrário: impedir a segregação, forçar a mistura dos grupos, exigir que os Nós estejam diluídos nos Eles. Como? Daqui a duas semanas eu explico.

Fonte: pág 3, Segundo Caderno ZH, edição 03 de julho de 2014 | N° 17848



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