Colunistas

03/07/2014

Aceita um sonho?

Artistas transformaram desejos de mil passageiros da Capital em monóculos com imagens ilustrativas, que agora estão sendo distribuídos nos pontos de ônibus

Duas estranhas chegam apresentando o que parece ser, além de uma esquisitice, um bom negócio.

– Estamos te oferecendo um sonho. É gratuito. Aceita? Se não for um sonho que te agrada, pode trocar – anuncia a artista visual Isabel Sommer, segurando um cesto de vime repleto de monóculos.

Isabel e a colega Vera Junqueira são as idealizadoras da intervenção urbana Ando Sonhando, que compilou os depoimentos de mil passageiros de ônibus de Porto Alegre. Os desejos, referentes a objetivos materiais ou abstratos, estão representados em imagens e frases dentro de 3 mil unidades dos pequenos objetos plásticos com lente de aumento e vêm sendo distribuídos nos mesmos locais onde foram coletados. Aguardando condução para Cachoeirinha no Terminal Triângulo, Zona Norte, na tarde da última terça-feira, a aposentada Marlene Gonçalves, 68 anos, devolve três ao recipiente antes de encontrar uma mensagem que lhe agrade: melhora do sistema previdenciário.

– Ganho muito pouco, Deus me livre. Estou construindo minha casa e falta o telhado – lamenta.

Entre os objetivos mais citados durante a fase de entrevistas estavam casa própria, carro, dinheiro, saúde e felicidade. Anseios impossíveis, como rever um familiar falecido, e até a ausência de qualquer projeto de vida – principalmente por jovens – também surgiram com frequência. Viver em uma cidade mais limpa, ser escritor, andar em ônibus vazios, concluir a faculdade, curar um câncer e ser jogador de futebol eram algumas das demais aspirações identificadas. Uma idosa comoveu as autoras ao revelar que, desde a infância, convivia com a vontade nunca satisfeita de ser presenteada com uma boneca.

– Os sentimentos de quem usa o transporte coletivo são negativos e ruins: os ônibus estão lotados, atrasados. Ninguém está feliz por estar ali. A nossa ideia é que a pessoa, ao manifestar o sonho, troque a sensação ruim por uma boa – explica Vera sobre a iniciativa que tem financiamento do Ministério da Cultura.

Desfeita a estranheza inicial pela abordagem incomum, a maioria cede à curiosidade e topa, sorrindo, o convite para sonhar. Fabio Badi, entretanto, num instante se mostra frustrado com o que lê pelo orifício da caixinha: “realização profissional”.

– Eu queria alguma coisa com “namorada” – afirma o auxiliar de produção, prestes a conhecer pessoalmente a mulher com quem fez contato telefônico a partir de um programa de rádio que tenta formar casais.

– E que tal “ser feliz”? – sugere Isabel, trocando o monóculo.

Mateus Forte, 10 anos, não se interessa pelo cartão-postal de Londres que pesca no balaio. Aluno do terceiro ano, alega ainda não ter estudado mapas e países – não sabe onde a cidade fica nem se impressiona com a possibilidade improvável da viagem. Substitui-a por um Uno amarelo. Tímido, custa a falar o lugar que desejaria realmente visitar se o veículo se materializasse.

– Tramandaí – segreda.

Marlene deixa o banco onde aguarda o ônibus para a Região Metropolitana e vai atrás da equipe do Ando Sonhando, que circula pelo Triângulo.

– Posso trocar? – pergunta, logo avaliando o conteúdo de outros três monóculos, optando enfim pela figura de um automóvel. – Na aposentadoria, não vai mudar nada. Vou é vender esse carro e botar o telhado na minha casa – justifica, rindo.

larissa.roso@zerohora.com.br

LARISSA ROSO

Fonte: ZH, 03 de julho de 2014 | N° 17848



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