Colunistas

29/11/2014

A profecia d um líder africano e o silêncio perturbador

Edgar Welzel De Stuttgart, Alemanha. Renomados homens de Estado, chefes de governo e ilustres personalidades da vida cultural, artística e demais áreas do conhecimento humano costumam deixar frases ou pensamentos que perduram os séculos.

Desta forma chegaram até aos nossos dias frases de antigos gregos, de estudiosos da Idade Média e de personalidades mais recentes como Winston Churchill, Mahatma Gandhi, John F. Kennedy, Martin Luther King, Nelson Mandela, Madre Teresa e outros.

Algumas dessas frases, pensamentos ou ditados nem sempre foram compreendidas na época em que seus autores as pronunciaram ou escreveram. Seu real sentido e valor só se tornou claro às gerações vindouras. Retrospectivamente tendemos a ver tais homens como videntes, porque tiveram uma visão que nos deixaram em forma de uma frase ou texto curto e comprimido.

A fim de elucidar o acima exposto abordaremos apenas uma destas frases tendo em vista a sua atualidade. Pronunciada na década de 70 do século passado, na época nem siquer chamou atenção, esquecida por uns, ignorada por outros e não compreendida por muitos. Lida à luz de nossos dias, a frase preocupa, mexe, faz pensar, enfim, é assustadora.

Seu autor, Houari Boumedienne (1927-1978), político argelino, formou-se em teologia islâmica e em seguida filiou-se a um dos partidos políticos da Argélia, a “Front de Libération Nationale” (FLN). Projetou-se como comandante durante a Guerra de Libertação da Argélia (1954-1962) conseguindo grande influência. A partir de 1960 foi comandante também da FLN na Tunísia e no Marroco. Em 1965, numa crise interna da Argélia, Houari Boumedienne depôs Ahmed Ben Bella e assumiu o poder em dupla função: a de chefe de governo e chefe de Estado.

Politicamente Boumedienne defendia um islã orientado ao socialismo semelhante às ideias de Gamal Abdel Nasser (1918-1970) presidente do Egito de 1954 a 1970 sem, no entanto, simpatizar com as ideias pan-arabistas de Nasser.

Boumedienne fomentou a industrialização da Argélia graças aos recursos provenientes da produção de petróleo, estatizou empresas particulares e nunca deixou de odiar os franceses que combateu arduamente durante toda a Guerra da Argélia. Foi admirado em quase todos os países islâmicos em virtude de seus sucessos econômicos. Boumedienne teve substancial influência também nos movimentos de libertação nacional que terminaram com o colonianismo das potências europeias em muitos países da África.

No início da década de 70 Houari Boumedienne pronunciou um discurso no qual afirmou o seguinte: “Chegará o dia em que milhões de pessoas deixarão o hemisfério sul a fim de invadir o hemisfério norte. Elas com certeza não virão como amigas. Virão como conquistadoras. E elas o conquistarão com os seus filhos que habitarão a região. O ventre de nossas mulheres nos trará a vitória”. (Pesquisei e verifiquei a veracidade das palavras de Boumedienne. Há inúmeas fontes que as citam. Atualmente são usadas por grupos radicais da direita e esquerda para criticar a “invasão” estrangeira na Europa!)

As palavras de Boumedienne foram esquecidas logo após a sua prematura morte ocorrida em 1978 mas foram redescobertas diante dos acontecimentos no Oriente Médio, no norte da África e outras regiões africanas.

Tomei conhecimento da “visão” de Boumedienne por oportunidade de uma palestra sobre o Islã, seguida de uma discussão com a audiência, na qual tive a oportunidade de participar. Durante a discussão um cidadão de origem migratória (eufemismo empregado para designar pessoas de origem estrangeira) pediu a palavra e leu para a audiência a “visão” de Boumedienne num alemão impecável.

Após a leitura, a sala foi dominada por um silêncio quase que sepulcral; não demorou e as pessoas começaram a se retirar. A maioria cabisbaixos. O que mais me impressionou não foi a leitura da frase de Boumedienne, mas foi o silêncio que se seguiu.


Fonte: O autor, por e-mail
Obs.: Publicado também no jornal Opção, de Goiânia, Goiás.



Comentários

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Ovidio Hillebrand 01/12/2014, às 11:07

toda História Humana acontece assim mesmo....

deslogado
Ovidio Hillebrand 01/12/2014, às 11:06

toda História Humana acontece assim mesmo....


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