A diversificada presença alemã no Brasil desde o descobrimento em 1500 - por Dietrich Böhnke*

A presença alemã no Brasil começa bem antes do início oficial da imigração alemã ao Brasil em 1824. Vamos adentrar a época do descobrimento, fazendo então uma curva ou volta até o tempo presente. A “viagem” pode começar: 

É impossível relacionar a imensidão de personalidades e de fatos relevantes neste ensaio relativamente bem resumido, os quais foram decisivos até a formação da República do Brasil. Esta relação por itens e pontos é finalizada de propósito com a ocorrência importante para a história moderna do país, pois é relativamente mais simples lembrar-se de fatos que datam de, no máximo, cem anos. Para dizer isso com as palavras de Karl Heinz Oberacker Jr: ”Pessoal alemão contribuiu assim de maneira destacada para a circunstância deste espaço, dentro do qual no decurso de séculos deveria surgir a nação brasileira, ser incluído na abrangência dos conhecimentos da Europa. A nação brasileira deve agradecer a tal abrangência, em última análise, a sua existência em geral. E a Europa, e não somente Portugal, forneceu a esta nação as fundamentações básicas da vida, pois entre os primeiros colonizadores que se radicaram na América do Sul portuguesa, encontravam-se, ao lado de portugueses, ainda membros outros povos e nem por último, também alemães, os quais, no percurso de séculos até os dias de hoje, tiveram um papel importante na história do país”.

Economia

Ao contemplar a história brasileira, temos que mencionar neste lugar o papel da economia alemã. Como já foi evidenciado em cada um dos itens, fatores econômicos e de industrialização contribuíram de maneira decisiva desde o começo para o desenvolvimento do país. Hoje, quando já passamos para o novo milênio, podemos encontrar 1200 empresas de origem alemã nessa terra, quase todas radicadas nas regiões do sudeste e do sul. São Paulo é, segundo o número de empresas de origem alemã ali estabelecidas, a maior cidade industrial alemã no mundo inteiro. Há 86 anos existem as câmaras de comércio e indústria, que possuem, em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre, 900 firmas associadas. Elas estão se dedicando aos assuntos e às atividades da economia brasileiro-alemã; com pontos preferências para o comércio exterior, formação profissional e trabalhos de publicidade. Oferecem uma série de serviços. As empresas de origem alemã apresentam investimentos diretos de US$ 16 bilhões. Tradicionalmente estão concentradas no ramo industrial, dando trabalho e emprego a 250.000 colaboradores. Neste caso não estamos incluindo as atividades econômicas da Áustria e da Suíça no Brasil. 

Dr. Klaus Wilhelm Lege, vice-presidente na gerência da Câmara de Comércio Exterior São Paulo e editor da obra recém-lançada “A história alemã brasileira”, está subdividindo a contribuição alemã à industrialização brasileira no século 20 como segue: 

  1. Anos 40 – Contribuição indireta da Alemanha para uma ignição inicial de um impulso autônomo de industrialização (“aciaria”)

  2. Anos 50 – Contribuição alemã como motor da industrialização (indústria automobilística).

  3. Anos 70 – Contribuição alemã ao milagre econômico brasileiro, (empresas de porte médio). 

Empresas isoladas de alemães e de descendentes de alemães conquistaram, desde o fim do século 19, tanto o Brasil, como em parte também os mercados mundiais, entre eles Garoto (chocolate), Gerdau (aço), Hering (têxteis), Melhoramentos (fabricação de papel etc), Odebrecht (construção, química etc) e Schmidt (porcelana), o seu espaço. 

Depois da Segunda Guerra Mundial em 1949 a empresa Mannesmann conseguiu fazer o primeiro grande investimento no Brasil. Em Belo Horizonte foram construídas uma aciaria e fábrica de tubos, que entraram em funcionamento no ano de 1954. Isso foi a base para o abastecimento de muitas indústrias. Depois da assinatura do tratado comercial de 1950, ficou evidente que a procura de maquinário e de implementos, de produtos de aço e ferro e a de produtos químicos havia crescido em escala bem maior do que a das matérias primas e dos gêneros alimentícios, exportados pelo Brasil. Por causa disso os conglomerados de ponta da economia alemã recomendaram montar tal produção no Brasil. Assim foram fundadas muitas empresas no Brasil, em 1953, entre elas Volkswagen do Brasil, Mercedes-Benz do Brasil, MWM, Degussa, Ferrostaal e outras. Com isso se deu início à “Revolução Industrial” do Brasil. até o final de 1957 chegaram ainda mais 130 empresas e participações alemãs; entre as mesmas BASF e Henkel. Empresas pioneiras como Bayer, Hoechst e Siemens já estiveram desde o século 19 no Brasil, possuindo estabelecimentos em atividade aqui. Assim estabelecimentos brasileiros com capital alemão foram motor para a industrialização. Com o presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira foi iniciada a partir de 1955 a nova fase de desenvolvimento; ele procurou investimentos do exterior para aplicação no país, iniciando ainda a construção de Brasília. A produção industrial do país cresceu entre 1955 e 1960 370%. As bases para a indústria brasileira de bens de capital foram criadas. No ano de 1964 aconteceram distúrbios políticos com greves; os militares assumiram o poder. O regime militar instalou uma reestruturação profunda da economia. Foram abolidas as determinações que afugentavam o capital do exterior, herdadas de governos anteriores. O almirante, de origem germânica, Augusto Hamann Rademaker Grünewald incentivou tal política de amizade econômica. Em 1969 ele foi, de maneira passageira, presidente do estado brasileiro, e mais tarde seu vice-presidente. O descendente de alemães, Ernesto Geisel, foi presidente da República de 1974 até 1979. 

O intercâmbio de mercadorias entre o Brasil e a Alemanha duplicou entre 1960 e 1970. Em 1971 foi organizada em São Paulo a até agora maior exposição industrial alemã. Aumentaram bastante os investimentos das empresas de médio porte, especialmente com vistas à política oficial de substituição das importações. Personalidades da vida econômica brasileiro-alemã como Ernst Günther Lipkau e Wolfgang Sauer laboravam naquela época como executivos e consultores. Apesar da crise mundial do óleo de 1973 perdurou a confiança estrangeira no Brasil, acontecendo continuamente mais e maiores investimentos. Entre 1975 e 1991 a hidrelétrica do Itaipu se tornou a maior obra de construção do mundo inteiro, com participação decisiva de empresas alemãs como Siemens e Voith. 

Mesmo sendo as décadas dos anos 80 e 90 consideradas como “décadas perdidas”, elas trouxeram consigo, apesar disso, uma estabilização das estruturas democráticas, com consolidação do parlamentarismo. O presidente, de origem alemã, Fernando Collor, neto do primeiro ministro brasileiro do trabalho, Lindolf Leopold Koller-Boeckel, introduziu em seu curto período de mandato (1990 – 1992) a modernização da estrutura econômica. Nisso podemos enumerar o alívio no atendimento do capital estrangeiro investido, melhor manipulação das marcas e dos patentes estrangeiros, bem como o fim das reservas de mercado, especialmente as de informática. Com isso muitos empresários brasileiros conseguiram tornarem-se competitivos também internacionalmente. Brasileiro-alemães construíram nos últimos tempos também filiais de empresas originalmente teuto-brasileiras na Alemanha. Entre estes temos Theodor Wille, Aliança, Citrosuco, Hering, Mangels, Odebrecht, Tupy, Varig e outros. 

Como podemos ver, a história teuto-brasileira está cheia de fatos impressionantes. A terra de imigração, o Brasil, estendeu e estende a mão a todos aqueles que pretendem contribuir positivamente para o seu desenvolvimento. De modo algum podemos compreender, qual seria o motivo pelo qual a maioria dos brasileiros ainda hoje nada ou quase nada está sabendo a respeito da contribuição de seus concidadãos alemães ou de descendência alemã para a construção de seu país. Mesmo descendentes de alemães muitas vezes nada estão sabendo sobre a presença importante de seus antepassados na história primitiva do Brasil. Nas escolas e mesmo nas universidades o ensino a tal respeito se limita a coisas rudimentares. Em geral a transmissão de conhecimentos está se limitando à presença de elementos germânicos no sul brasileiro, a partir do começo do século 19. A historiografia brasileira está costumeiramente orientada puramente para o lado luso. Poderia ser interessante, com toda certeza, para entidades culturais e representações diplomáticas, chamar a atenção de repartições públicas brasileiras de ensino, para que seja feita a inclusão da participação alemã na construção do país, nos livros didáticos de história das escolas. Reconhecimento e compreensão despertam simpatia, com efeitos inclusive no campo econômico. Depois de Karl Heinz Oberacker Jr. ter elaborado em suas obras básicas os fundamentos para este tema, são as iniciativas como as de Ernst Günther Lipkau com sua obra “Ponte entre o Brasil e a Alemanha” (editado por ocasião dos 75 anos de existência da Câmara de Comércio Exterior São Paulo) e de Dr. Lege com seu livro “A Historia Alemã do Brasil”, elaborado com base no manuscrito de Manfred Buschny, que podem dar novos impulsos de meditação aos brasileiros e estudiosos de qualquer origem, bem como aos demais interessados em geral. 

Os milhares de alunos em escolas de ensino alemão poderão no futuro, ao lado de estudantes universitários, ser engajados em trabalhos de pesquisa para o tema “Brasil-Alemanha”. Bem como estudantes interessados nos países de língua alemã na Europa. Para isso deveriam ser oferecidos anualmente prêmios específicos nos campos de cultura e de economia. Uma comissão superior sob presidência do encarregado principal de cultura brasileiro-alemã poderia ocupar-se disso. Na juventude reside o futuro, vale conquistá-la para estas tarefas. 

Desde Hans Staden até Hans Donner, de Moritz von Nassau, passando por Samuel Fritz, Leopoldine von Habsburg, Gisele Bündchen e Gustavo Kürten – o Brasil indicou para muita gente os caminhos, vias que são únicas e que até conseguiram ser assumidas pela história universal. A formação do Brasil ainda não acabou. A dinâmica do país exige constantemente adaptação e ajuste, empreendimento e coragem. Neste dia 25 de julho nos lembramos não somente daqueles que existiram antes de nós neste globo terrestre, mas olhamos para frente. O legado dos antepassados poderá ser para nós uma valiosa orientação. 

(Artigo traduzido de autoria de Dieter Böhnke, publicado no hoje extinto semanário Brasil-Post, de São Paulo, em 20.07.2001. Tradutor: Georg K.A.Fuchs/Belo Horizonte).


*Dietrich Böhnke é historiador alemão radicado em São Paulo, ex-assessor de Imprensa na Bayer no Brasil, ex-consultor econômico no Consulado da Áustria em São Paulo, aposentado, engajado no desenvolvimento do Brasil através de parcerias com entidades ligadas à cultura alemã, rumo ao Bicentenário da Imigração Alemã. 

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