Sim, já falei mil vezes que Berlim é demais, que é onde a vida acontece, que é tudo de bom e blábláblá. Mas tem coisas que o só o Brasil faz por você. Sabe aqueles pequenos detalhes que ninguém dá bola? Como conseguir fazer a cópia de uma chave depois das 16h em um sábado, mandar apertar uma calça ou trocar o zíper de uma bota? Pois é. Nesses requisitos (entre tantos outros), e nos serviços em geral, nossa terrinha dá um laço na turma daqui.
Por exemplo. Um dia, eu tive o grande azar de perder a chave de casa. Esse dia, era sábado. Enquanto minha colega de apartamento trabalhava, peguei a chave dela e fui atrás de um chaveiro. O daqui da esquina estava fechado, o da Roxa-Luxemburg Strasse também e o Mister Minit em Alexanderplatz igualmente. Perdi umas 3 horas caminhando pra fazer uma cópia de uma chave. Tive que rir para não chorar. Como uma coisa tão simples, tão, se posso dizer assim, até idiota de tão banal, pôde se tornar algo tão estressante?
E nem no Alexa, o maior shopping center de Berlim também deixou a desejar, me levando ao desespero. Mas aquele dia ainda dei sorte, fui até um outro shopping, menorzinho, em Schönhauser Alle, aqui perto de casa e achei um bendito chaveiro. Mas o preço foi salgado: 9 euros a chave. Eu estava tão nervosa que paguei, queria me livrar daquele pepino.
Mas a história continua. No molho de chaves que perdi estava a chave da caixa de correio. Entrei em contato com a dona do apartamento, que me informou não ter outra cópia. Falei com o zelador, que não me deu resposta. O jeito era ir num chaveiro durante a semana e ver o que dava pra fazer.
Fui novamente no chaveiro/sapateiro da Schwedter. Str, que me explicou que só pra vir até a minha casa (nem 40m da loja), seriam 50 euros. Para fazer a cópia da chave, mais 15. Ou seja, 65 euros para alguns passos até aqui e uma “chavinha” do correio. Mas, quem mandou perder a chave?
Postei na comunidade Brasileiros em Berlim do Orkut atrás de ajuda. Algumas pessoas, solidárias a minha dor, comentaram suas experiências amargas. Como a da menina que se trancou do lado de fora da casa e teve que despachar 89 euros. Multiplica isso por 3 e terá o valor aproximado em reais. Pois é. E olha que Berlim é uma das cidades mais baratas da Europa.
O desfecho da chave do correio foi longe. Fui fazer uma pesquisa de preço no chaveiro da Rosa-Luxemburg Strasse. Expliquei o que aconteceu. O chaveiro, pacientemente, disse para eu ir pra casa, abrir a portinha da caixa e olhar se havia lá dentro um adesivo colado com uma sequência de números. Se tivesse, eu teria simplesmente que anotar, trazer para ele, que ele faria uma cópia da chave pra mim. Simples, sem transtorno. Enquanto o Mané da Schwedter Str. nem me deu outra opção.
Fui pra casa com esperança. Olhei dentro da caixa e não tinha nada. Voltei lá com uma cara enorme de frustração. Tá bom, se ele me cobrar 30 euros eu já topo, pensei. Mas não. Ele simplesmente me aconselhou a forçar a portinha até ela abrir, que depois eu mesma poderia trocar toda a fechadura.
Vim pra casa, de novo, e com a ajuda de um amigo (porque mulher geralmente não tem força suficiente, como eu), conseguimos abrir a portinha. Não precisamos de nenhuma ferramenta para tirar a fechadura. Ela simplesmente encaixa. Levei de novo até o chaveiro honesto da Rosa-Luxemburg Strasse. Mostrei pra ele e ele me deu uma nova. Que custou 10, 10 EUROS. Simplesmente.
Fiquei surpresa com a honestidade do cara.
Chaveiro da Schwedterstr. = 65 euros
Chaveiro da Rosa-Luxemburg Str. = 10 euros
Por isso, não importa. Pesquisar preços SEMPRE.
Aí, agora que o inverno está acabado, resolvi mandar arrumar o zíper da minha bota, que estragou. Saí hoje para o sapateiro aqui perto, mas eles estão em férias coletivas. Aí contra a minha vontade fui no ladrão da Schwedterstr., já que ele trabalha com isso também. Ali já dizia: só trabalhamos com pagamento adiantado.
Mostrei a bota, expliquei a situação e a primeira coisa que ele disse foi: “Isso é caro”.
“Caro quanto”, perguntei.
“35 euros”
35 euros??? Quase R$ 100 pra trocar um zíper quando a bota custou 70 euros? Não, muito obrigada. Que raiva daquele cara. Mas enfim, o problema é meu.
Aí, indo encontrar minhas colegas, passei por um outro chaveiro/sapateiro no corredor do u-bahn em Alexanderplatz. Uma mulher simpática me atendeu. Expliquei a história dos 35 euros. Ela mediu o tamanho do zíper, fez uma conta na calculadora e me deu o preço: 18 euros.
Ainda caro por um zíper. Mas não precisei pagar adiantado e foi METADE do preço.
Por isso que aqui, quando uma coisa estraga, as pessoas simplesmente jogam fora e compram outra. Os serviços são caros demais. No Brasil, é diferente. Por o nosso dinheiro valer menos e ser mais suado de conquistar, acho que aprendemos a dar valor para o que temos. Além de cuidar do que é nosso, quando alguma coisa estraga, porque não mandar arrumar (por alguns trocadinhos), procurar uma solução menos hiperreal e consumista…
E mando um grande abraço a todos os chaveiros, sapateiros, costureiros e demais “consertadores de coisas” honestos aí do Brasil, que facilitam TANTO a nossa vida quando a gente realmente precisa.